terça-feira, 28 de abril de 2009


Acuña, Pedro Teixeira, e o Rio das Amazonas

 Por Cel Hiram Reis e Silva, 27 de Abril de 2009

"Parte de Cametá a expedição de Pedro Teixeira, capitão-mor por Sua Majestade, das entradas e descobrimentos de Quito e do rio das Amazonas. Levava um regimento dado pelo rei. Devia fazer a exploração do rio Amazonas, descobrir uma comunicação fluvial com Quito e escolher o limite mais conveniente entre os domínios das duas coroas e o local para uma povoação na linha divisória". (Barão do Rio Branco)

- Cristobal de Acuña

Filho de família nobre e influente nasceu em Burgos, em 1597. Ingressou na Companhia de Jesus, em 1612, e tão logo recebeu as ordens sacras foi enviado para a América. Foi professor de Teologia moral no Colégio de Cuenca (Quito) e mais tarde reitor daquele estabelecimento. Em fevereiro de 1639, juntamente com outro irmão da ordem, o padre André de Artieda, foi designado para acompanhar Pedro Teixeira na sua viagem de volta pelo rio das Amazonas chegando à Belém em dezembro do mesmo ano.

- Pedro Teixeira

As informações sobre a data de nascimento de Pedro Teixeira são conflitantes. O ‘Conquistador da Amazônia’, de ascendência nobre, nasceu em São Pedro de Cantanhede, distrito de Coimbra, Portugal em 1587 (ou 1570). Foi Cavaleiro da Ordem de Cristo e Moço Fidalgo da Casa Real e, na localidade de Praia, nos Açores, casou-se com Ana Cunha, filha do Sargento-Maior Diogo de Campos Moreno. Veio para o Brasil em 1607 com 20 (ou 37) anos onde contribuiu de forma notável para manutenção da soberania portuguesa na Terra Brasilis e na expansão da fronteiras amazônicas para além do tratado de Tordesilhas.

O currículo de Pedro Teixeira é vasto e impressionante e, por isso, reproduziremos somente algumas de suas operações mais importantes. Como alferes, em fevereiro de 1614, enfrentou os franceses na Batalha de Guaxenduba e, em 1616, juntamente com Francisco Caldeira Castelo Branco, fundou a cidade de Belém do Pará. Ainda em 1616, com duas canoas armadas bateu uma nau holandesa na foz do Xingu e, em maio de 1623, destruiu a Fortificação de Mariocay, onde havia se instalado uma guarnição de holandeses e ingleses, e neste mesmo local construiu a fortificação de Santo Antônio de Gurupá.

Em 23 de maio de 1625, Pedro Teixeira, tendo às suas ordens os Capitães Pedro da Costa Favela e Jerônimo de Albuquerque, ataca e toma o forte holandês de Maniutuba, na foz do Xingu. O comandante inimigo Oudaen consegue fugir, com parte da guarnição, em uma lancha, para a ilha de Tucujus”. Após a vitória do dia anterior, Pedro Teixeira desembarca na ilha de Tucujus (Amazonas), onde os ingleses, comandados por Philipp Pursell, tinham três fortins. Os dois primeiros foram tomados quase sem resistência, fugindo os defensores. Adiantando-se então, teve o Capitão Favela de sustentar viva peleja com os ingleses e holandeses, que vinham ao encontro. Os dois chefes inimigos, Pursell e Oudaen, ficaram no campo entre os mortos. O outro fortim rendeu-se a Pedro Teixeira”. (PARANHOS)

Em Maio de 1625 impede uma nova tentativa de ocupação pelos holandeses das ilhas da Foz do Amazonas; em 21 de Outubro de 1625 expulsa os holandeses da Fortificação de Torrego, na confluência do Maracapucu.

Em 21 de junho de 1629, “o Capitão Pedro da Costa Favela parte de Belém do Pará com a missão de tomar ou render o forte de Taurege (Torrego), construído pelos ingleses na margem esquerda do Amazonas. Nada consegue e suspende as hostilidades, retirando-se para a aldeia de Mariocai. O forte de Torrego só foi tomado, no dia 24 de outubro, por Pedro Teixeira”. (PARANHOS)

24 de outubro de 1629, “o Capitão Pedro Teixeira, que assediava com forças do Pará o forte inglês de Taurege, pelos nossos chamados Torrego, derrota um corpo inimigo, que vinha em socorro dos sitiados. O assédio começara no dia 24 de setembro, em que Teixeira ai desembarcou, vencendo a oposição do inimigo. Duas sortidas foram repelidas, e, vencido o socorro que esperava, rendeu-se no mesmo dia o comandante do forte, James Pursell, com 80 soldados e alguns índios. Arrasada a fortificação, seguiu Teixeira para a aldeia de Mariocai, depois Vila de Gurupá. A guarnição inglesa foi conduzida para o Pará e seu chefe remetido para Lisboa. O forte de Taurege ficava na margem esquerda do Amazonas, junto ao rio hoje chamado Toheré. Cumpre não confundir este James Pursell com Philip Pursell, morto em combate na ilha de Tucujus”. (PARANHOS)

Em 26 de outubro de 1629, “chegava o Capitão Pedro Teixeira com as tropas, que dois dias antes haviam rendido o forte de Taurege, e com os prisioneiros ingleses, à aldeia de Maiocai (10 anos depois Vila de Gurupá), quando o Capitão North, que trazia reforços para o inimigo em 2 navios maiores, 1 patacho e 2 ou 3 lanchas, tentou um desembarque. Repelido este ataque, foram os ingleses fundar o forte de Camaú, na ponta de Macapá, só conquistado pelos nossos a 9 de julho de 1932. (PARANHOS)

- A expansão da soberania portuguesa

No século XVII a região amazônica era palco de disputa pelas potências européias, como Castela, França, Holanda e Inglaterra. O governador do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Jácome Raimundo de Noronha, em outubro de 1636, no período em que os portugueses se encontravam sob o jugo castelhano (Coroa Ibérica - 1580/1640), idealizou a expansão da soberania portuguesa na bacia amazônica antevendo que o período da restauração se avizinhava. Para concretizar o audacioso empreendimento, nomeou Pedro Teixeira para a chefia da expedição, com o propósito de estender os domínios de Portugal até as terras peruanas fundando povoados que marcassem o limite das terras da Coroa Portuguesa no Amazonas. O motivo para a escolha de Pedro Teixeira, além de suas qualidades militares, era seu profundo conhecimento da região e a política que implementava em relação aos indígenas.

- A narrativa

Cristobal de Acuña escreveu, em 1641, a ‘Relación del Descubrimiento del rio de las Amazonas’, a obra teve a sua primeira edição publicada em Madrid, pela ‘Imprensa del Reyno’. A crônica do padre jesuíta é leve, dividida em pequenos capítulos, com explicações objetivas e interessantes tornando sua leitura amena e agradável.

- Pedro Teixeira começa a sua viagem

Saiu, pois, este bom caudilho dos confins do Pará aos 28 de outubro de mil seiscentos e trinta e sete anos, com quarenta e sete canoas de bom tamanho e nelas setenta soldados portugueses, mil e duzentos índios de voga e guerra, que, juntos ás mulheres e moços de serviço, passariam de duas mil pessoas. Durou a viagem cerca de um ano, tanto pela força das correntes, como também pelo tempo que, em preparar subsistência para tão numeroso exército, era forçoso se gastasse, e principalmente por caminharem sem guias certos, que os pudessem dirigir sem rodeios nem dilações pelos caminhos mais curtos”.

- O capitão-mor chega a Quito

Com esta confiança e poucos companheiros, continuou Pedro Teixeira em seguimento do seu coronel, que já se encontrava desde alguns dias na cidade de Quito. Aí foram bem recebidos e agasalhados, tanto dos Seculares como dos Eclesiásticos, mostrando todos o prazer que sentiam em ver, em seu tempo, e por vassalos de Sua Majestade não só o descoberto, senão também navegado, desde a sua foz até suas primeiras nascentes, ao afamado rio Amazonas”.

- Resolução do vice-rei do Peru

Recebida naquela Real Audiência de Quito a notícia. que bastava para dar plano concreto do muito que às duas Majestades Divina e humana importava acudir com brevidade ao bom êxito de negócio tão importante, não se atreveram os senhores Presidente e Ouvidores a resolver coisa alguma, sem primeiro dar conhecimento ao vice-rei do Peru, que era então o Conde de Chinchón.

Conde de Chinchón: Jerônimo Fernandez de Cabrera Bobadilla y Mendoza chegou a Lima, como vice-rei do Perú em 14 de janeiro de 1629 e governou até 18 de dezembro de 1639. Seu nome está ligado à cinchona, a quina, usada como remédio contra a malária.

Este, depois de consultar sobre o assunto a gente mais ponderada da cidade de Lima, Corte daquele Novo Mundo, resolveu por carta sua ao Presidente de Quito (que era o licenciado D. Alonso Perez de Salazar), datada de dez de novembro de seiscentos e trinta e oito, que o Capitão Pedro Teixeira voltasse logo com toda a sua gente à cidade do Pará, pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, dando-se-lhe todo o necessário para a viagem, pela falta que tão bons capitães e soldados fariam sem dúvida naquelas fronteiras, que de ordinário são infestadas pelo inimigo Holandês, mandando juntamente que, se fosse possível, se depusessem as coisas de modo que fossem em sua companhia duas pessoas dignas, às quais se pudessem dar fé pela Coroa de Castela, de todo o descoberto e do mais que na viagem de volta se fosse descobrindo”.

- A real audiência nomeia o padre Cristobal de Acuña para esta jornada

“(...) nomeou em primeiro lugar, para esta empresa, ao padre Cristobal de Acuña, religioso professo, e atual reitor do colégio da Companhia na cidade de Cuenca, jurisdição de Quito; e em segundo lugar, por seu companheiro, ao padre Andrés de Artieda, lente de Teologia no dito Colégio da mesma cidade de Quito. Aceita pelos senhores da Real Audiência a nomeação dos dois Religiosos da Companhia de Jesus, se lhes mandou uma Provisão Real (cuja cláusula pusemos no começo desta narrativa), na qual se lhes ordena que, sendo com ela requeridos, partam imediatamente da cidade São Francisco de Quito, em companhia do Capitão-Mor Pedro Teixeira, e chegando à do Pará, passem à Espanha, a dar conita ao rei, nosso Senhor, em sua real pessoa, de tudo o que cuidadosamente tiverem notado no decurso da viagem”.

- Peixe Boi e Pescados deste Rio

Contudo do que mais se alimentam e que, dizem, lhes faz pratos, é o incontave1 pescado, que com incrível abundância colhem todos os dias, às mãos cheias, neste Rio. Mas entre todos o que como Rei aí domina, e do qual está povoado todo o Rio, desde as suas nascentes até que deságua nos mares, é o Peixe-boi, peixe que de tal só tem o nome, pois não há pessoa que, quando o come, não o tenha por carne temperada; é do tamanho de um bezerro de ano e meio e na cabeça, se tivesse chifres e orelhas, não se diferenciaria dele; tem por todo o corpo alguns pelos, não muito compridos, a modo de cerdas moles, e se move dentro d’água com dois braço curtos, que em forma de pás lhe servem de remos, de baixo dos quais mostra a fêmea os seus peitos, com que nutre com leite os filhos que pare. Do couro, que é muito grosso, fazem adargas os guerreiros, e tão fortes, que bem curtido, não o atravessa uma bala de arcabuz.

Este peixe só se sustenta de erva que pasce, como se fosse boi verdadeiro, donde adquire a sua carne tão bom gosto, e é de tanta sustância, que com pequena quantidade fica uma pessoa mais satisfeita e com mais força que se comesse o dobro de carneiro. Debaixo d’água sustém pouco o anhélito e assim, onde quer que ande, levanta amiúde o focinho para cobrir novo alento, donde vem a sua total destruição, pois ele mesmo se vai mostrando ao seu inimigo; vêem-no os índios e o seguem em pequenas canoas, e esperam que, querendo respirar, tire fora d’água a cabeça, e cravando-o com os seus arpões, que fazem de conchas, lhe tiram a vida; dividem-no em porções médias, que assadas em grelhas de pau, duram, sem estragar-se, mais de um mês. Não fazem dele chacinas para o ano todo (e que são de muito preço) por não haver sal em abundância, que o que empregam para temperar as suas comidas é muito pouco, e feito de cinzas de certa qualidade de palmeiras, que mais é salitre que sal”.

- Tartarugas do Rio e como as guardam

Mas já que não lhes é dado conservar estas chacinas, não lhes falta indústria para terem carne fresca durante todo o inverno, que, embora não seja tão gostosa como aquela, é mais sã e não menos proveitosa. Fazem para isto uns currais grandes, cercados de paus, e cavados por dentro, de modo que, como lagoas de pouco fundo, conservem sempre em si a água de chuva. Feito isso, no tempo em que as tartarugas saem a desovar nas praias, eles também deixam as suas casas, e emboscando-se nos postos conhecidos, por elas mais frequentados, esperam que, saindo à terra, venha cada qual ocupar-se em fazer a cova onde pretende deixar os ovos; saem nesta ocasião os índios, cercam-nas pelo lado da praia, por onde devem fazer a sua retirada para a água, e de chofre acometendo sobre elas, em breve tempo se vê,em senhores de grande quantidade, sem outro trabalho que o de as virar de pernas para o ar, com o que, sem se poderem mexer, as mantêm todo o tempo que querem, até que colocadas todas em vários cordéis, por uns furos que lhes fazem no casco, lançadas na água, remando eles em suas canoas, as levam a reboque sem nenhum trabalho, até mete-las nos currais que fizeram, onde as soltam, dando-lhes por prisão aquele estreito cárcere, e alimentando-as com ramos e folhas de árvores, as mantêm vivas por todo o tempo que necessitam.

São estas tartarugas tão grandes e maiores que rodelas de bom tamanho; é sua carne como de vitela; as fêmeas tem no bucho, quando as matam, mais de duzentos ovos cada uma, um pouco maiores e quase tão bons como os de galinha, embora de mais difícil digestão. Estão nesse momento tão gordas, que de duas se tira uma botija de manteiga, a qual, temperada com sal, é tão boa, mais gostosa e dura muito mais que a cozida de vacas; serve para frigir peixe e para quaisquer gêneros de guisados, em que aqui se usa a melhor e mais delicada manteiga. Apanham estas tartarugas em tal abundância, que não há um destes currais que não tenha de cem tartarugas para cima, com o que nunca sabem estes bárbaros que coisa seja a fome, pois uma só basta para satisfazer uma família, por muita gente que tenha”.

- Modos de pescar que usam

“(...) O modo de pescar é diferente, conforme as variações do tempo e as enchentes ou vazantes das águas. Assim, quando estas baixam tanto que já os lagos secam, sem ter comunicação com o Rio, usam de uma espécie de trovisco, que naquelas costas chamam timbó, da grossura de um braço, pouco mais ou menos, e tão forte, que machucados dois ou três destes paus, e batendo com eles a água que ainda naqueles lagos mantém os peixes, apenas estes chegam a provar do seu vigor, todos se deixam apanhar com as mãos. Mas o modo ordinário com que em todos os tempos e ocasiões se apoderam de quanto peixe vive neste abastecido rio, é com as flechas que com uma mão arremessam de uma pazinha que sustentam, e cravadas no peixe, lhes faz o ofício de bóia, para conhecer onde, depois de ferida, se retira a presa, a que com presteza se arrojam, e agarrando-a, a recolhem nas canoas.

Arpão de bico: formado por uma haste de madeira nobre de mais de dois metros de comprimento e, em cuja ponta é adaptado um bico em forma de ponta de flecha. No bico é amarrada uma corda de fibra vegetal de mais de uma dezena de metros e a outra ponta da corda é amarrada na popa da embarcação. Depois de arpoado o peixe o bico se solta da haste e esta faz o papel de bóia e, o pescador pode conduzi-lo, depois de cansado, como se faz com uma linha de pesca.

Este modo de pescaria não se limita a uma ou outra qualidade particular de peixe, mas em geral se estende a todos, que nem uns por grandes, nem os outros por pequenos, são privilegiados, passando todos pela mesma rasoura. Com ser estes peixes, como já disse, de tão diversas qualidades, são muito bons de gosto, e muitos deles de particularíssimas propriedades, como é a de um peixe, que os índios chamam Poraque, que é a modo de uma enorme enguia, ou por melhor dizer, como um pequeno congro, o qual tem a propriedade que, enquanto estiver vivo, quantos lhes tocam tremem do corpo inteiro enquanto dura o contacto, como se tivessem um calafrio de quartans, cessando tudo no instante em que dele se apartam”.

- As ferramentas que usam

“As ferramentas de que se utilizam para trabalhar, não só as suas canoas, mas também as suas casas e o mais de que hão mistér, são machados e enxós, não temperados por bons oficiais nas ferrarias de Viscaia, mas forjadas nas frágoas de seus entendimentos, tendo por mestra, como em outras coisas, a necessidade. Esta lhes ensinou a cortar no casco mais duro da tartaruga, que é a parte do peito, uma prancha de um palmo de comprimento e pouco menos de largura, que curada no fumeiro, e afiada numa pedra, é presa num cabo, e com ela, como bom machado, embora não com tanta presteza, cortam o que desejam. Deste mesmo metal fazem as suas enxós, servindo-lhes de cabo para elas uma queixada de peixe-boi, que a natureza formou com a sua volta, de propósito para tal fim. Com estas ferramentas lavram tão perfeitamente, não só as suas canoas, mas também mesas, taboas, assentos e outras coisas, como se tivessem os melhores instrumentos de nossa Espanha.

Em algumas nações são estes machados de pedra trabalhada a poder de braços, que adelgaçam de modo que, com menos receios de quebrar-se, e mais depressa que com os outros de tartaruga, cortam qualquer árvore, por grossa que seja. Seus escopros, goivas e cinzéis para obras delicadas, que as fazem com grande primor, são dentes e colmilhos de animais, os quais encabados em seus paus, não fazem menos bem o seu ofício que os de fino aço. Quase todos tem em suas províncias algodão, uns mais, outros menos; mas nem todos dele se aproveitam para vestir-se, mas antes quase todos andam nus, tanto os homens como as mulheres, sem que a vergonha natural os vexe, a não querer parecer que estão no estado de inocência”.

- Rio das Amazonas

“Estas mulheres varonis tem sua sede entre grandes montes e altíssimos cerros, dos quais o que mais se alteia entre os outros, e que, como o mais soberbo, é combatido dos ventos com mais rigor, pelo que sempre se mostra descalvado e limpo de vegetação, se chama Yacamiaba. São mulheres de grande coragem, e que sempre se conservaram sem o comércio ordinário de varões, e mesmo quando estes, pelo acordo que tem com elas, vêm uma vez por ano às suas terras, recebem-nos com as armas nas mãos, que são arco e flechas, que atiram durante algum tempo, até que cientes de que vêm de paz os conhecidos, deixando as armas, acodem todas às canoas ou embarcações dos hóspedes, e tomando cada qual a rede que encontra mais à mão, que são as camas em que eles dormem, a levam para casa, e pendurando-a em sítio onde o dono a reconheça, o recebem por hóspede aqueles poucos dias, passados os quais eles voltam para as suas terras, repetindo-se todos os anos esta viagem pela mesma época.

As filhas fêmeas que nascem desta união, conservam e criam entre elas, porque são as que hão de levar adiante o valor e costumes de sua nação, mas os filhos varões não se sabe com certeza o que fazem com eles. Um índio que, sendo pequeno, tinha ido com seu pai a esta entrada, afirmou que os filhos varões eram entregues aos pais, quando no ano seguinte voltavam a sua terras. Mas contam os outros, e parece o mais certo por ser mais corrente, que reconhecendo-os como tais, lhes tiram a vida. O tempo descobrirá a verdade, e se estas são as famosas Amazonas dos historiadores, que guardam em sua comarca tesouros que dão para enriquecer o mundo todo”.

- Entra no mar o rio das Amazonas

“A vinte e seis léguas da ilha do Sol, debaixo da linha Equinocial, espraiado em oitenta e quatro de boca, tendo pelo lado do Sul o Zaparará e do oposto o Cabo do Norte, deságua no Oceano o maior pélago de águas doces que há no descoberto, o mais caudaloso rio de todo o Orbe: a Fenix dos rios, o verdadeiro Maranhão, tão suspirado e nunca acertado dos do Perú, Orellana antigo e, para dize-lo de uma vez, o grande rio das Amazonas, depois de haver banhado com as suas águas mil trezentas e cinquenta e seis léguas de extensão, depois de sustentar com suas riquezas infinitas nações de Bárbaros, depois de fertilizar imensas terras e depois de haver passado pelo coração de todo o Perú e, como canal principal, recolhido em si o melhor e mais rico de todas as vertentes.

Este é em suma o novo descobrimento deste grande rio que, encerrando em si grandiosos tesouros, a ninguém repele, mas antes, a todo gênero de gente convida liberal a que deles se aproveite. Ao pobre oferece sustento, ao trabalhador recompensa do seu trabalho, ao mercador empregos, ao soldado ocasiões de mostrar o seu valor, ao rico maiores riquezas, ao nobre honras, ao poderoso estados, e ao próprio Rei um novo Império. (...)”

Fontes:

ACUÑA, Cristobal de - Novo Descobrimento do Rio Amazonas - Uruguai, Montevidéu,1994 - Editora Oltaver.

PARANHOS, José Maria da Silva (Barão do Rio Branco) - Efemérides Brasileiras (1845-1912) - Brasil - Rio de Janeiro, 1946 - Imprensa Nacional.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Telefone:- (51) 3331 6265

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br


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