quarta-feira, 26 de agosto de 2009




Rondon e os Bororos

“Que sabe o brasileiro em geral de Rondon? Que era de origem índia e dedicou sua vida à reabilitação e à dignidade do silvícola. Que hoje está velho e cego e que no coração da nossa floresta ocidental há um imenso trato de terra batizado por Rondônia - em homenagem a Rondon. Nada mais. Quem foi esse homem, como viveu nos anos que lhe preparam a grandeza, qual o tecido dos fatos, heranças e influências, responsabilidades pela trama integral daquela personalidade de eleição”. (Rachel de Queiroz - 1957)

Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 21 de Julho de 2009

- Nomeação

Em julho de 1900, foi nomeado para participar da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas cujo objetivo era estabelecer a ligação entre a Capital da República e as fronteiras com a Bolívia e o Paraguai. Rondon, entusiasmado, comenta que para empregar militares neste tipo de missão seria necessário que se lhes modificassem, gradativamente, os hábitos guerreiros, ao mesmo tempo que se lhes incutissem idéias de fraternidade.

- A Missão

“Comandas. E no olhar tens um tal magnetismo

E tanto em ti confia a grei que te acompanha

Que, às cegas, desceria ao mais profundo abismo,Galgaria, ao teu mando, a mais alta montanha.”

(Bastos Tigre)

O paludismo e a polineurite infligiram sérias baixas à comissão. Das 81 praças que haviam iniciado os trabalhos só restavam 30 acometidas pelas doenças. As baixas obrigam Rondon acumular funções o que o faz sem esmorecer e sem perder o foco principal de seu objetivo.

Paludismo (Malária): é uma doença infecciosa aguda ou crônica causada por protozoários parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles.

Polinevrite (Polineurite): é o acometimento difuso e cinético de vários nervos periféricos mistos onde transtornos sensitivos, motores e autônomos ocorrerão.

“Regressei ao acampamento a pensar na tremenda responsabilidade quase insuperável, que ia enfrentar em minha vida de soldado e de engenheiro. Ia acumular as funções de meu ajudante, de explorador e locador, às minhas próprias, já tão difíceis, sobretudo porque estava a Comissão incompleta. Mas tudo enfrentaria com a firmeza habitual, sem vacilação, olhos fitos no objetivo que me havia imposto a mim próprio. E o serviço continuou no ritmo habitual, basta ler os diários: ‘distribuiram-se e prepararam-se postes, fizeram-se buracos, continuou o trabalho na picada...’ como se tudo estivesse correndo normalmente.

Claro que os trabalhos de exploração e locação passaram a ser feitos por mim. Foi quando recebemos a visita do Chemejera Oarinc Ecureu e do pagé Báru (céu) acompanhados de seus respectivos estados maiores e de turmas de caçada. Eram índios de Kejare e de Tatarimana. Partiram, depois da demora habitual, para Itiquira, prometendo visitar a Comissão, quando esta chegasse àquela localidade.

A 9 recebia telegrama do presidente de Mato Grosso, Almirante Alves de Barros. Animava-me a prosseguir nos trabalhos sem interrupção e assegurava que tudo seria providenciado. Alegrei-me, a despeito do telegrama do Vilhena, informando que não poderia atender ao meu pedido de saque, por não haver verba especial para a construção naquele ano, pelo fato de não ter sido ainda aproveitada a verba de 100 contos votada no ano anterior. Felizmente um telegrama de Dr. Manoel Murtinho comunicava ter o Ministro de Indústria prometido abrir novo crédito de 100 contos.

Eram cada vez maiores as dificuldades com o pessoal. As 81 praças com que haviam sido iniciados os trabalhos estavam reduzidas a 30. O impaludismo e a polinevrite grassavam; houve muitos casos fatais, tornou-se necessário evacuar os mais doentes para a guarnição de Cuiabá. Deram-se, além disso, 17 deserções. Em tão desanimadoras circunstâncias, lembrei-me de meus amigos bororos. Haviam-me eles prometido visitar-me, para assistir à inauguração da Estação de ltiquira. Não me negariam, certamente, o desejado auxílio. Lancei-lhes, pois, um apelo.

Realmente, a 20 de março chegava ao acampamento de Curugugua-bárado (ninho de gavião) o Pagé Báru, acompanhado de mais de 120 índios, entre homens, mulheres e crianças. Recebi-os com a cordialidade habitual e, enquanto não chegava a gente do Chemejera Oarine Ecureu, combinei com o Pagé Báru o trabalho de seus índios - fariam a limpeza da picada, trabalho que a remoção de troncos, deixados pela derrubada, tornava penoso.

Os índios chamavam Rondon de Pagmejera (grande chefe). Os caciques se tratavam por uma titulação menor: Chemejera. Quando os visitava Rondon era saudado efusivamente:Paqui-megera, aregodo! Boe-migera curireu! Nosso grande chefe chegou! O grande chefe bororo!

Uma semana depois chegava um emissário do Chemejera Oarine Ecureu. Estava ele acampado nas proximidades, sem poder prosseguir, por causa de um índio doente, para o qual pedia remédio a Pagmejera. Ao chegar a Meajau haviam os cachorros do índio - da turma de caçada - acuado uma onça. Correu ele a acudir-lhes e travou luta com a fera. Tratava-se, porém, de uma onça preta (adugo choreu) e ‘quem matar adugo choreu ou veado mateiro’, dizem os índios, ‘morrerá dentro de pouco tempo e não de morte natural’. O índio limitou-se, pois, a defender-se ficando bastante ferido. Enviei medicamentos, com as instruções necessárias e, passados alguns dias, chegava ao acampamento de Cugaroboreu (areia preta) onde nos encontravamos, o Chemejera Oarine Ecureu, com 150 índios, entre eles o índio ferido, convalescente e com as feridas cicatrizadas.

Como a turma do Pagé Báru, traziam tudo quanto lhes pertencia, inclusive seus papagaios e araras. Depois dos habituais discursos, longos, cheios de palavras amáveis e expressivas figuras de pensamento, combinei com os dois chefes que seriam seus companheiros utilizados na derrubada e limpeza da picada. A fim de se não romperem os hábitos dos índios, seria, para esse trabalho, uma turma diariamente designada pelos chefes. Forneceria à Comissão alimento para os índios que trabalhassem e suas famílias. Como essas turmas se revezavam, continuariam os índios, de modo geral, entregues às suas ocupações habituais de caça e pesca, para as quais era muito propícia a região. Por outro lado, poupava à Comissão víveres que seriam insuficientes para tanta gente.

Facilmente se sujeitaram os índios ao regime militar e ao trabalho acurado, com a condição de serem comandados pessoalmente por Pagmejera e por seus chefes. ‘Alferes não vê, não entende nada, não sabe - ioroduo bôqua - Pagmejera é que os trata com paciência e bondade e que lhes fala em língua bororo’. É que, durante a reconstrução da linha de Cuiabá ao Araguaia, após a pacificação dos índios do rio das Garças e depois de conseguir deles amizade e confiança, aprendi a sua língua - língua do Bóe. Dei ao Chemejera e ao pagé uma corneta. Assim, ao toque de faxina do acampamento, respondia a dos índios. Dizia o Chemejera: a corneta do acampamento fala ‘braide’, brasileiro, e a corneta que nos deu Pagmejera fala língua bororo.

E seguiam os dois contingentes. Os índios carregavam um quarto de boi e um saco de milho que eram postos a cozer, logo que chegavam ao local de trabalho, em grandes tachos cuidadosamente areados. Assim estava, pelo meio-dia, o alimento perfeitamente cozido. Enquanto os soldados comiam a sua matula (abreviatura de matalotagem) contornavam os índios os grandes tachos de onde retirava cada um o que desejava, para pratos de barro, por eles fabricados, deliciando-se com abundante caldo que bebiam, servindo-se de ato (conchas) existentes no fundo das baías.

Matalotagem: provisão de víveres.

No repouso que se seguia à refeição, recordavam seus antigos feitos ou comentavam os dos antepassados que, naquelas mesmas paragens, tinham enfrentado os civilizados, então seus inimigos, ou repelido, em seus próprios aldeamentos, ataques dos fazendeiros do Piquiri e do São Lourenço. Quando se recolhiam, à tarde, recebiam farinha, carne, milho, rapadura e fumo, para si e suas famílias.

Fora muito bem resolvido o problema de incutir respeito às famílias dos índios que nos vieram auxiliar quando o desânimo ameaçava desorganizar o serviço. Mandei formar o contingente e os índios, com seus chefes. Falei-lhes então com solenidade:

- Ficam os soldados proibidos de ir ao aldeamento, a não ser acompanhados e com autorização. Por outro lado, para evitar que seja essa ordem esquecida, devem os índios agarrar quem a transgredir e trazer a Pagmejera o faltoso, para o merecido castigo. Tudo correu às mil maravilhas até que uma noite despertei com verdadeiro alarido no acampamento. Não tardaram em aparecer, seguidos pela tribo a gritar e gesticular, quatro índios trazendo suspenso, acima das cabeças, um soldado desobediente.

Reunidos, com solenidade, contingente e tribo, exprobrei, com energia, a grave falta do soldado, que atraíra, com sua conduta irregular, tamanha vergonha para o contingente. Como já fosse alta noite, adiei para o dia seguinte o julgamento definitivo, deixando o culposo entregue a uma escolta. Ninguém dormiu. Logo cedo estavam os índios a postos, ansiosos por conhecer a decisão de Pagmejera - que foi a prisão do soldado, no tronco, uma vez que não havia cadeia. Oarine Ecureu exultou.

Infelizmente o incidente se repetiu, quase ao findar a expedição. Pensou um soldado poder penetrar no aldeamento sem ser pressentido. Agarrado, como da primeira vez, fui forçado a agir com maior energia e usar o processo do Conde de Lipe. Ao dirigir-me ao culpado, ante contingente e índios formados, disse:

- Esta surra é a que os índios tinham o direito de lhe aplicar. Penso que, para sua dignidade, é melhor que seja vergastado por ordem de seu próprio comandante.

Houve triste ocorrência a registrar:

Quando o acampamento foi estabelecido, na ponta do contraforte Água Branca, soubemos que havia sarampo em Coxim. Procurei impedir que os índios lá fossem, mas sua aguda curiosidade os levou a transgredir a ordem de Pagmejera e, assim, em breve irrompia violenta epidemia no acampamento. Atacou de preferência os índios, que morreram em grande número porque a febre os levava a se banharem no córrego, para suavizar a alta temperatura, malgrado os esforços do médico; só Pagmejera conseguia, embora a custo, dissuadi-los de tal prática, infelizmente depois de muitos casos fatais.

Tem os bororos muito desenvolvido o culto dos mortos e viam-se, no acampamento, privados de realizar integralmente as cerimônias fúnebres; embora, afastados do contingente, sentiam-se fora de seu ambiente. Foram, todavia, cultuados os mortos. Regavam-lhes abundantemente as sepulturas, para apressar a decomposição e assim, ao partir, foi possível exumar os ossos e guardá-los cuidadosamente em baquités enfeitados com carinho. De regresso à aldeia seriam completados os ritos do culto que mais empolga os bororos.

A mulher do Chemejera Oarine Ecureu, atacada pelo sarampo, ficou cega. Lamentava, em gritos, a cegueira que a privava de ser útil ao marido. Ao mesmo tempo que procurava consolá-lo pela perda da felicidade que haviam desfrutado até aí, esforçava-se por convencê-lo da necessidade de se unir a outra mulher, capaz de o servir, de fazer por ele o que lhe era agora vedado.

Inaugurou-se a Estação telegráfica do Itiquira, com estrondosa festa cívica, a 21 de abril de 1901 - dia de Tiradentes. Houve um banquete aos soldados e aos índios que participaram dos trabalhos e, à noite, realizaram estes formidável, bacorôro, organizado pelo Cacique Oarine e pelo Pagé Báru, apresentando-se muitos dos índios com mantos de pele de onça, como traje de gala.

“esforcei-me para que a sociedade se interessasse de fato pela sorte desses irmãos primitivos, sem cujo auxílio não me teria sido possível levar a cabo as tarefas que me haviam sido confiadas pelas autoridades da República”. (Rondon)

Depois de tão valiosa e eficaz coadjuvação, foram bem merecidas as manifestações de júbilo e reconhecimento que receberam. Um ano inteiro trabalharam os índios conosco, na melhor harmonia, estreitando-se cada vez mais as relações de amizade entre os chefes. Mas o pantanal já estava seco, era época de realizarem as caçadas prediletas - de onça. Assim, a 17 de maio, ao atingir a Comissão a zona de Coxim, encetando nova campanha para a frente, separamo-nos à margem do rio Tauaari com a frase de Oarine Ecureu:

- Aqui fico, bororo não entra em terra de caiamo, terra de terena, guaiacuru, uachiri...Foi tocante a despedida dos índios.

Carregando os baquités que levavam para sua aldeia de Kejare, repetiam, cada um por sua vez:

- Quiaregodo-augai! Quiaregodo-augai ! Hú! Aregodugue... que saudades! que saudades de vocês! Sim! Não mais voltarei.

Partiram a 19; uma turma, a de Oarine Ecureu, seguiu rumo do Piquiri, para onde se encaminhava o traçado da linha, declarando o cacique que voltariam de tempos a tempos, para nos ajudar. A turma do Pagé Báru desceu o Itiquira, em busca do baixo São Lourenço. Com a verba do Almirante Alves de Barros, compramos valiosos presentes para esses bons amigos”.

Fontes: VIVEIROS, Esther de – Rondon conta sua vida - Brasil, Rio de Janeiro,1958 – Livraria São José.

Expedição Roosevelt Rondon

Por Cel Hiram Reis e Silva, 25 de Maio de 2009

Falar de Rondon é abusar dos adjetivos, é falar no superlativo. Encontramos na obra do Major Amílcar Botelho de Magalhães Júnior relatos dos bravos que compunham a Comissão Rondon. Apresentamos ao leitor brasileiro a vivência contagiante de brasilidade de um ícone tão magnífico que a própria história resolveu materializar sua grandeza emprestando seu nome a um estado brasileiro - Rondônia. Este artigo mostra, através de pequenos episódios, sua conduta profissional irretocável que marcou definitivamente a memória do, seu companheiro de viagem, presidente Roosevelt.

- A Comissão

“O Governo Brasileiro, atendendo aos desejos manifestados pelo notável e saudoso estadista da América do Norte, organizou uma comissão brasileira para o acompanhar na arrojada travessia do sertão de nossa Pátria e escolheu para chefiar essa comissão ‘the right man to the right place’ - o então Coronel Rondon. À larga visão de um jovem estadista - o Sr. Lauro Mül!er - ministro das Relações Exteriores nessa época, devem-se os extraordinários benefícios que advieram para o nosso País, com a acolhida de tal iniciativa, não só pelo reconhecimento geográfico de uma região até aí desconhecida e pelos estudos de História Natural realizados na zona percorrida, como também pelo valor da propaganda do Brasil no estrangeiro, especialmente na América do Norte, através do livro que Roosevelt publicou sob o título ‘Through the Brasilian Wilderness’, livro que ele foi escrevendo no decorrer da própria expedição.

(...) Logo que Lauro Müller transmitiu o convite a Rondon, este acedeu imediatamente ao appelo do Governo, ponderando em todo caso que estaria pronto ao desempenho da comissão certo de que ‘não se tratava de um mero passeio de sport, mais ou menos perigoso, mas que o Governo ligaria aos intuitos de uma travessia pelo sertão, objetivos científicos de utilidade para nossa Pátria’. Isto indica o ponto de vista elevado em que Rondon se colocava, ao mesmo tempo em que evidencia estar ele a par do que se passava no mundo, não obstante viver na floresta anos seguidos! (O Escritório Central tem sempre a incumbência de lhe transmitir por telegrama o resumo dos principais acontecimentos dentro e fora do País, telegramas a que alguns telegrafistas chamavam - o jornal de Rondon”. (Magalhães)

- A Expedição Roosevelt-Rondon

“Ficou assentado que a expedição Roosevelt estudaria a fauna daquela região e dela forneceria exemplares ao American Museum of Natural History de New York. particularmente interessado em coleções provindas das regiões divisoras das bacias do Amazonas e do Paraguai. As bagagens da expedição foram, assim, rotuladas com os dizeres: ‘Colonel Roosevelt's South American Expedition for the American Museum of Natural History’.

Completariam a expedição dois naturalistas, Cherrie e Leo E. Miller, veteranos das florestas tropicais; o secretário de Roosevelt, Frank Hasper; Jacob Sigg - que acumularia as funções de cozinheiro, enfermeiro e assistente de Father Zahm; Anthony Fiala, antigo explorador dos pólos. Seria este chefe do equipamento que deveria conter, especialmente, tudo o que pudesse defender os expedicionários de insetos e répteis, além de 90 latas de alimento concentrado, cada uma com ração para cinco homens, em um dia, reações compostas e acondicionadas pelo próprio Fiala. O filho do Sr. Roosevelt, o Sr. Kermit, reunir-se-ia à expedição, no Sul do Brasil, onde se achava havia alguns meses”. (Viveiros)

- A crueldade da vida dos trópicos

“Entrávamos agora no teatro dos trabalhos por nós iniciados em 1907, tendo-se já descoberto a maior parte desse sertão - ligado por meio das linhas telegráficas, a Santo Antônio do Madeira e a Cuiabá, portanto ao Rio de Janeiro - sertão já estudado e cartografado. A Comissão criada pelo Presidente Afonso Pena abrira à civilização, havia cinco anos, esse sertão que desde 1890 vinha eu percorrendo e estudando à custa de sofrimentos incríveis, suportados com a resignação de quem se consagrou a um ideal, vendo morrer companheiros, amigos devotados, de polinevrite, febres e disenteria, flechados pelos Índios, devorados pelas piranhas, exaustos de cansaço, eu próprio quase perdendo a vida em diversas ocasiões, inclusive a percorrer mais de 3.000 quilômetros, para atingir o Madeira, com 40° de febre.

Diria o Sr. Roosevelt, mais tarde, depois de atravessar a região: ‘é incrível a quantidade de insetos - que mordem, picam, devoram, depositam bernes, causam sofrimentos atrozes; vai além do que se possa imaginar. O patético mito da benfazeja natureza não pode ser aplicado à crueldade da vida dos trópicos”. (Viveiros)

- O head-ball

“Notava ele, com vivo interesse, os objetos de uso dos índios, os tecidos feitos pelas mulheres, os costumes - as mulheres sempre ativas, ocupando-se dos filhos com infinita paciência, carregando-os em faixas largas a tiracolo, inseparáveis de seus fusos que faziam rodopiar desde que tivessem as duas mãos livres, ainda que fosse por um instante, uma para suspender o fio, a outra para fazer girar o irrequieto aparelho.

Teve o Sr. Roosevelt ocasião de assistir a interessante esporte dos parecis - a que chamou head-ball (izigunati, ou matianá-ariti). Uma bola de borracha leve, por eles mesmos fabricada, era jogada com a cabeça, em destros movimentos de pescoço, sem que fosse tocada com mãos ou pés. Era difícil decidir o que mais admirar - se a destreza e força das cabeçadas, se a habilidade com que a bola era aparada. Referindo-se a esse esporte, em seu livro ‘Through the Brazilian Wilderness’, confirmou o Sr. Roosevelt a opinião que expendi em 1911 de que era instituição autóctone sobre a qual nunca lera nem ouvira contar nada que permitisse supor ser praticada por qualquer outro povo do mundo”. (Viveiros)

- O assassinato do Sargento Paixão

“Além da grave afecção palustre que acometeu RooseveIt, cuja vida esteve em sério perigo; além da redução que sofreram as rações normais dos expedicionários; além do trágico naufrágio de uma canoa, do qual salvou-se milagrosamente o destemido Kermit Roosevelt e de que resultou o desaparecimento de um dos canoeiros da expedição; um trágico acontecimento teve por teatro às margens do rio Roosevelt. Roosevelt narra-o com escrupulosa exatidão, transcrevendo em seu livro citado o documento que os expedicionários todos firmaram em testemunho da verdade. Vamos referi-lo sumariamente, para depois comentar a diversidade dos pontos de vista norte-americano e brasileiro na maneira de encarar os fatos. Na travessia de uma serra que tomou o nome do morto, foi assassinado traiçoeiramente por um dos soldados canoeiros o Sargento Paixão, belo tipo de negro, cujas tradições honrosas ao serviço da Comissão Rondon e da pacificação dos silvícolas, angariaram-lhe sempre a simpatia de seu chefe.

Passava-se a carga de montante para jusante da cachoeira e o Sargento Paixão dirigia o pessoal. Cumpridor de seus deveres e das ordens que recebia e que fazia cumprir sem tergiversações, impedira que o soldado subtraísse alimento em conservas. O soldado que era um tipo covarde e perverso, iludindo a vigilância do sargento, apossou-se de uma carabina Winchester carregada, ocultando-se atrás de uma grande árvore no pique do varadouro. Aí aguardou a passagem do sargento e desfechou-lhe um tiro de bala á queima-roupa, matando-o quase instantaneamente. Ouvindo o estampido, correram os expedicionários a verificar do que se tratava e já foram encontrar o sargento nos últimos arquejos da morte. Seguindo a pista do criminoso, floresta dentro, encontrou-se caída ao solo a carabina de que se servira, ao pé de um tronco, onde uma escoriação da casca parecia revelar que o assassino abalara em uma corrida louca, como que perseguido e chicoteado pelo remorso atroz, esbarrando ali com a arma, que lhe escapara das mãos... No desespero da fuga, prosseguira em carreira desordenada, para não perder tempo em apanhar a arma, como se sentisse já quase a estrangula-lo a mão da Justiça!... Não foi possível alcançar o criminoso e voltaram os expedicionários ao acampamento, sob a triste impressão do lamentável acontecimento”. (Magalhães)

- O choque de doutrinas

“Em face do assassinato apresentaram-se então em campos opostos a teoria dos americanos e a dos brasileiros. Roosevelt, interprete da primeira, entendia que o assassino devia ser fuzilado, sem mais formalidades, por qualquer dos expedicionários que lhe pusesse os olhos em cima. E argumentava que, estando os expedicionários de ração reduzida, não era lícito dividirem o que restava com um homicida; que este se mostrara indigno de qualquer sacrifício dos companheiros de exploração; que recebe-lo seria aumentar uma boca a comer, sem que se pudesse ter mais confiança nos dois braços para o trabalho. Os brasileiros, porém, entendiam que se deveria acolher o malvado, alimenta-lo e exigir dele o trabalho compensador do alimento a que tinha direito, embora como prisioneiro, à espera do contato com o meio civilizado, para os fins do processo legal a que deveria oportunamente responder.

No dia seguinte ao do assassinato, a expedição perseguiu a descida do rio e quis a fatalidade que o assassino, arrependido, no desespero de quem se sente isolado em pleno deserto, condenado de improviso a representar o papel do homem primitivo da Terra, surgisse a pedir socorro justamente quando passava a canoa de Roosevelt! O 1° ímpeto de Roosevelt foi, como era natural, levar a sua arma ao rosto e apontar... Certo, porem, no seu espírito refletido passou a imagem da teoria brasileira, como um anjo protetor e benigno... e ele retirou a arma, franziu o sobrolho e informou ao médico, que o acompanhava na mesma canoa, não desejar que a embarcação atracasse para receber o assassino. Os seus desejos foram satisfeitos e lá ficou a implorar perdão e piedade, debruçado sobre um galho à beira d’água, a figura sem dúvida asquerosa, mas infeliz, daquele pobre bandido... O desgraçado acompanhou com o olhar a canoa até que esta desapareceu na primeira curva do rio, como quem vê extinguir-se a sua ultima esperança!... O seu olhar desvairado compreendeu então que o abandonavam definitivamente aos azares de uma sorte cruel. Ele merecia incontestavelmente um tremendo castigo, pela hediondez de seu crime, mas justo é refletir que só uma grande dureza de sentimentos aprovaria semelhante solução, nada civilizada. Quando a expedição acampou, a ocorrência foi comunicada ao chefe da Comissão Brasileira. Discutido o caso em presença de todos os expedicionários, Rondon fez sentir a Roosevelt o que a propósito determinava a lei brasileira e que em face da nossa legislação o seu dever era aprisionar o assassino e conduzi-lo consigo: aos juízes competiria sentenciar-lhe o castigo. Imediatamente Roosevelt responde-lhe: ‘Pois bem, Sr. Coronel Rondon, se a lei de seu país é esta, eu estarei pronto a cumpri-la!’ Nenhuma prova mais cabal poderia Roosevelt ter dado da superioridade de seu espírito!

Rondon determinou então a permanência de um dia no novo acampamento e organizou uma patrulha que subiu o rio em busca do homicida, e que o devia prender, sem maltratar. Essa patrulha, porém, subiu o rio até o ponto em que fora visto o assassino, foi ainda muito além, rebuscou a mata em todas as direções, deu tiros de sinal, mas não conseguiu deparar com o criminoso. Este sem dúvida temera apresentar-se, supondo que o quisessem matar! À noite recolheu-se a patrulha e ao dia seguinte prosseguiu a expedição águas abaixo, sem que nunca mais se tivesse notícias do assassino. Teria sido comido pelas onças? Teria encontrado índios que o acolheram? Teria morrido de fome? Ninguém nunca o saberá talvez; a sua vida ficou envolta no mais profundo mistério e faz-me de vez em quando pensar em todas essas peripécias, arrastando-me a imaginação a uma infinidade de hipóteses”. (Magalhães)

- Uma Valquíria Brasileira

“Curioso episódio também foi observado em relação a mulher de um dos soldados regionais do destacamento que acompanhou Roosevelt, desde Tapirapoan (rio Sepetuba) ás margens do rio da Dúvida. Grávida já de nove meses, essa mulher acompanhou a pé todas as marchas da expedição, por terra, o que era motivo para admiração geral. Aconselhada em Tapirapoan a alojar-se ali para seguir depois de dar a luz, recusou-se peremptoriamente e declarou que estava acostumada a andar no sertão nesse estado de gravidez, sem se cansar. A convicção de suas afirmativas, levou o comandante do destacamento à tolerância de a deixar seguir, embora contra o voto do médico. Pois bem, essa mulher extraordinária, não só marchou diariamente 4 a 5 léguas a pé, como também só interrompeu a marcha um dia (24 horas) para dar a luz. Ao dia seguinte do parto prosseguia a marcha a pé carregando o filho ao colo”. (Magalhães)

- Uma Valquíria Brasileira

“Às 11 horas, o Dunstan, onde viajava a Comissão Americana. levantava âncora. rumo ao oceano... ainda o acompanhamos por algum tempo, a bordo do aviso Cidade de Manaus. Afinal, por entre as névoas da saudade, que já envolvia nossos corações, lançamos, ao espaço, as últimas despedidas, erguendo vivas ao Chefe da Expedição Americana e à grande República que tinha a glória de o ter por filho.

Às 23 horas voltava eu, no Cidade de Manaus, à Capital do Amazonas de onde segui pelo Madeira acima, e, depois, pelo Jamari, de onde demandaria a estação de Barão de Melgaço, a fim de continuar os meus trabalhos de construção da Linha Telegráfica de Cuiabá ao Madeira.

Escreveu o Sr. Roosevelt o volumoso livro ‘Through the Brazilian Wilderness’, descrição de sua viagem. Foi esse livro traduzido, tendo eu pedido prévia autorização à Viúva. Essa delicadeza muito a sensibilizou e a autorização veio assinada, não só por ela, como por todos os filhos e pelo editor.

Quando o Sr. Roosevelt foi à Europa, para fazer conferências sobre sua excursão, fui eu também convidado. Nessa ocasião, disse um português, a propósito do rio da Dúvida, que os portugueses já lhe conheciam a barra, ao que retrucou o Sr. Roosevelt:

- Só a barra era conhecida, isto é, alguns poucos quilômetros dos seus 1500 quilômetros de curso”. (Viveiros)

Fonte:

MAGALHÃES, Major Amílcar Botelho de – Impressões da Comissão Rondon – Brasil, Rio de Janeiro,1921 – Editora Brasiliana. VIVEIROS, Esther de – Rondon conta sua vida - Brasil, Rio de Janeiro,1958 – Livraria São José.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Telefone:- (51) 3331 6265

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br



quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ativistas interrompem premiação a Lula para pedir proteção da Amazônia


Presidente recebeu prêmio na sede da Unesco, em Paris

Ambientalistas seguravam faixas pedindo que Lula 'salve' a floresta.


Ativistas da organização ambientalista Greenpeace interromperam na sede da Unesco, em Paris, nesta terça-feira (7) a cerimônia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebia o prêmio Felix Houphouet-Boigny da Paz. Eles seguravam faixas pedindo que o líder brasileiro proteja a Amazônia.


terça-feira, 7 de julho de 2009

Pesquisadores descobrem novo macaco na rota da BR-319



Rodovia, que liga Porto Velho a Manaus, corta ‘coração’ da floresta.

Cientista teme que reforma da estrada prejudique animal recém-descoberto.

Uma nova subespécie de macaco acaba de ser descoberta no Amazonas e já corre risco. O pequeno primata, batizado cientificamente como Saguinus fuscicollis mura, foi encontrado entre os rios Madeira e Purus, justamente sob o traçado da rodovia BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). A rodovia, que hoje está abandonada e intransitável, tem a reforma prevista no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). A obra aguarda apenas a licença do Ibama para começar, e ambientalistas afirmam que a estrada poderá trazer uma devastação sem precedentes para a região.


O nome
mura, dado pelo ecólogo Fábio Rohe, um dos autores da descoberta, é uma homenagem aos índios muras, que viviam próximos ao lugar onde o macaco foi encontrado. A escolha, segundo o cientista, serve para dar um alerta. “Os mura foram muito prejudicados pelos brancos. De certa forma, eles representam a resistência da natureza ao mundo civilizado”, conta o cientista, que trabalha na WCS Brasil (Wildlife Conservation Society) dentro do Programa Conservation Leadership Programme (CLP).

Bicho versátil

A descoberta do novo macaco ocorreu em 2007 durante uma expedição de um grupo de cientistas ligados à rede Geoma. De acordo com Rohe, o bicho é conhecido pelos moradores da região, mas ninguém sabia que se tratava de uma nova subespécie, já que ele é semelhante a outros macacos amazônicos, todos chamados genericamente de sauim ou choim.

Depois de comparar cores, medidas e localização de pelo menos 13 parentes próximos do mamífero, o pesquisador comprovou que o animal era uma variação da espécie Saguinus fuscicollis, e a descrição da subespécie foi publicada na revista científica "International Journal of Primatology" em junho deste ano. Além de Rohe, participaram da descoberta os pesquisadores José de Sousa e Silva Jr, Ricardo Sampaio e Anthony Rylands.

O novo macaco é pequeno. Tem em média 23 cm de altura, 31 cm de rabo e pesa 350 gramas. Segundo Rohe, o sauim é um bicho versátil, que consegue sobreviver tanto em matas densas quanto em florestas ralas, como as que margeiam os campos naturais ao longo da BR-319. Ele consegue se alimenta principalmente de insetos e de frutas.

Estradas, usinas e gasoduto

Não é apenas a reforma da rodovia que gera temor entre os biólogos que trabalham na Amazônia. A construção das usinas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, e o projeto do gasoduto Urucu-Porto Velho também assustam os estudiosos do meio ambiente, que preveem uma corrida de migrantes para o sul do Amazonas.

“Não sabemos ainda quais serão as consequências da obra [das usinas] para o curso do Madeira. Além do desmatamento, a obra vai fazer com que mais pessoas vão morar na região”, alerta o cientista da WCS. “Mas certamente, se não houver um trabalho de fiscalização sem precedentes no Brasil, a BR-319 será a veia de destruição da Amazonia central brasileira.“

Nova gralha

Uma espécie de gralha também foi descoberta recentemente no traçado da BR-319, e corre ainda mais risco do que o macaco. Como ela consegue viver apenas nos ambientes de transição entre os campos naturais e a floresta, pode ser muito prejudicada pelas queimadas que passarão a ocorrer na região.

Se você vive ou viajou para a Amazônia e tem denúncias ou ideias para melhorar a proteção da floresta, entre em contato com o Globo Amazônia pelo e-mail globoamazonia@globo.com. Não se esqueça de colocar seu nome, e-mail, telefone e, se possível fotos ou vídeos.



Rio Purus

Por Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 30 de junho de 2009

“É que o grande rio, malgrado a sua monotonia soberana, evoca em tanta maneira o maravilhoso, que empolga por igual o cronista ingênuo, o aventureiro romântico e o sábio precavido.” (Professor Frederico Hartt)

Meu companheiro de viagem, na nossa descida de caiaque pelo Solimões, não entendeu porque eu planejara navegar pelo Rio Purus, abandonando o leito do Solimões. Se meu amigo desfolhasse as páginas amareladas da história deste heróico e misterioso manancial, certamente chegaria à conclusão de que não poderíamos, absolutamente, passar ao largo da foz do ‘Rio da Trindade’. Eu precisava absorver um pouco daquele ser místico, precisava submergir nos quatro séculos passados de tantos desafios em que os ‘desbravadores’ tentaram descobrir seus segredos, conhecer sua história. Precisava sentir nas águas de hoje o colossal ‘Lago Pebas’ de priscas eras.

- Rio Purus

“Realmente, o Purus, um dos mais tortuosos cursos d’água que se registram, é também dos que mais variam de leito. Divaga, consoante o dizer dos modernos geógrafos”. (Euclides da Cunha)

Nasce nas colinas do Arco Fitzcarrald, Serra da Contamana (região de Ucayali), no Peru, há aproximadamente 500m de altitude e percorre cerca de 3.300 km até sua foz no Solimões. Com características de rio de baixada, de águas barrentas, rica em sedimentos andinos, é classificado como rio de água branca. Possui um traçado muito sinuoso, cheio de curvas bem fechadas, e drena uma área de aproximadamente 376.000,00 km². Deste total, 73% se encontra no Estado do Amazonas, 21% no Estado do Acre, 5,5% no Peru e 0,5% na Bolívia.

O rio Purus entra no Brasil pelo estado do Acre, no município de Santa Rosa do Purus, passando pelo município de Manoel Urbano, entrando no estado do Amazonas pelo município de Boca do Acre onde recebe as águas do Rio Acre e segue pelo estado do Amazonas até desaguar no rio Solimões.

- Lendário Purus

Envolto em mistérios e fantásticas lendas, muitas delas motivadas pelos temores dos antigos desbravadores europeus, outras tantas pelos nativos, seus antigos habitantes e guardiões, o Purus vem cativando a memória ancestral dos povos através dos séculos sem perder seu encanto e seu carisma carregado de fantasias que o alimentam desde seu berço nos contrafortes andinos até a foz no Solimões.

- Frei Gaspar de Carvajal

“A ilha que existe fronteira à boca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se ‘Ilha da Consciência’; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais, abdica às melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio, a rir, com aquela ironia formidável”. (Euclides da Cunha)

Gaspar de Carvajal, em 03 de junho de 1542, relatou no seu manuscrito intitulado ‘Relación del descubrimiento del famoso río grande de las Amazonas’ a passagem de Orellana pela foz do Rio Purus e as aldeias à jusante de sua foz no Solimões: “... viemos a encontrar com outro rio mais caudaloso e maior, pelo braço direito; era tão grande que na entrada havia três ilhas, razão pela qual o denominamos Rio da Trindade (Purus); além disso, na junção dos dois rios, havia muitos e populosos povoados na bela terra de Omágua, e por serem muitas as aldeias e tão grandes e com muita gente, o Capitão não quis aportar. (...)

Havia nesse povoado, uma casa de diversões, dentro da qual encontramos louças dos mais variados feitios: havia vasos e cântaros enormes, de mais de vinte e cinco arrobas, e outras vasilhas pequenas como pratos, tigelas e castiçais, de uma louça da melhor que já se viu no mundo, mesmo a de Málaga não se iguala a ela, porque é toda vitrificada e esmaltada com todas as cores, tão vivas que espantavam, apresentando, além disso, desenhos e figuras tão compassadas, que naturalmente eles trabalhavam e desenhavam como os romanos. Os índios nos disseram que o que havia ali na terra a dentro era de ouro e que nos levariam até lá, pois era perto. Nessa casa achamos ainda dois ídolos tecidos de palha trançada de vários modos, que chegavam a espantar, tendo a estatura de gigantes e, na parte musculosa do braço, umas rodas com forma de bracelete, assim como na coxa, próximo dos joelhos. Tinham enormes orelhas furadas, como os índios de Cuzco, só que eram maiores. Este tipo de gente reside terra a dentro e possui a riqueza já contada e é para sua recordação que os ídolos ficam ali.”

- Padre Cristobal de Acuña

Acuña, em 1639, menciona no Capítulo LXIII - O Rio dos Gigantes, de sua crônica ‘Novo descobrimento do rio das Amazonas’: “Dez léguas adiante do referido sítio tem fim a província dos Yoriman, e transcorridas outras duas léguas, desemboca na margem sul um famoso rio que os índios chamam de Cuchiguará. Tal rio é navegável, ainda que em certas partes tenha algumas pedras. Tem muito pescado, grande quantidade de tartarugas, abundância de milho e mandioca e tudo o que for necessário para facilitar sua exploração. Está povoado por várias nações que, começando por sua boca e prosseguindo rio acima, são as seguintes: Cuchiguará, que tomam seu nome do rio, Cumayari, Guaquiari, Cuyariyayana, Curucuru, Quatausi, Mutuani e por fim e remate de todos, estão os Curigueré. De acordo com informações de pessoas que os viram e que se ofereciam a levar-nos a suas terras, são eles gigantes de dezesseis palmos de altura, muito valentes, andam nus e trazem grandes pátenas de ouro nas orelhas e narizes. Para chegar a suas aldeias são necessários dois meses contínuos de viagem desde a boca do Cuchiguará”.

- Guillaume d’Isle

D’Isle, geógrafo da Academia Real de Ciências de Paris, em 1703, fez um hipotético esboço cartográfico do Purus (mapa do ‘Rio do Omopalens’) que segundo ele nascia nos cerros andinos, acima da cidade de La Paz. D’Isle anexou, ao esboço, um comentário sobre os povos que nele habitavam: ‘mutuanis, dos quais se diz serem gigantes ricos em ouro, habitantes a dois meses de caminho da embocadura do rio’.

- Carl Friedrich Phillipp von Martius

O naturalista Martius, nas sua ‘Viagem pelo Brasil’, em 1817/1820, escreve que: ‘Acerca do Purus, calam-se todas as mais recentes notícias’. Sobre os nativos que habitavam suas margens afirma que “todos ainda em estado de absoluta selvageria e conhecidos por sua perfídia. Eles colhem aqui abundantes plantas medicinais, o cacau e a salsaparrilha, e permutam com as expedições que frequentam o rio, onde as duas partes contratantes se apresentam de armas na mão” e conclui: “Ninguém se aventura ainda a fundar missões no Purus”.

- Antonio Ladislau Monteiro Baena

Militar, geógrafo e historiador português chegou ao Pará em 1803. Como oficial do Exército Brasileiro atuou na repressão à Cabanagem chegando a alcançar o posto de Major de Artilharia. Escreveu o ‘Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará’ que se constitui numa verdadeira enciclopédia, feita com pesquisa de campo, arquivos das paróquias, cartórios e Câmaras Municipais. Na sua obra, encontramos dados demográficos sobre economia, finanças públicas, descrição sobre a administração pública e judiciária da Província, além de informações sobre a flora e a fauna e os diferentes ecossistemas da região. Baena afirma no seu ‘Ensaio’ que o Purus é um “rio opulento de cacau, salsaparrilha, óleo, tartarugas, peixe-boi: as sezões invadem os que intentam colher estas e outras mais produções suas. Ele é de água branca, as margens em grande são campinas de umas serras ao norte de Cuzco, antiga capital dos infortunosos incas”.

- Expedições oficiais

“O Purus é um enjeitado. Precisamos incorporá-lo ao nosso progresso, do qual ele será, ao cabo, um dos maiores fatores, porque é pelo seu leito desmedido em fora que se traça, nestes dias, uma das mais arrojadas linhas da nossa expansão histórica”. (Euclides da Cunha)

A partir de 1852, João Batista Tenreiro Aranha, presidente da província do Amazonas, desmembrada do Grão-Pará, nesse ano, passou a organizar diversas expedições de exploração, procurando estabelecer uma comunicação com a Bolívia pelo Juruá e pelo Purus.

- João Rodrigues Cametá

Cametá, em 1852, diretor de índios, organizou a primeira exploração do Purus, realizando uma expedição que durou 53 dias de navegação em canoa até o Sepatini de onde retornou em decorrência da vazante do rio.

- Serafim Salgado

“Realmente nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incontáveis meandros, o Purus entope-se com as raízes e troncos das árvores que o marginam”. (Euclides da Cunha)

Ainda em 1852, presidente da Província, organizou uma segunda penetração, objetivando descobrir uma comunicação fluvial que se dizia existir entre as bacias do Purus e do Madeira com o propósito de facilitar a comunicação e transporte com a Bolívia. Salgado subiu o curso do rio até a nona maloca dos índios Cocamas, provavelmente pouco além da confluência da boca do Aquiri (Acre) de onde retornou, depois de percorrer 2.250 milhas, tendo em vista que a partir daí o rio se tornava muito estreito e obstruído.

- Manoel Urbano da Encarnação

Em 1861, Manoel Urbano, o preto, Diretor dos Índios do Purus, nomeado para esse cargo desde 1853, cumprindo ordens do presidente Manoel Clementino Carneiro da Cunha, subiu o rio e penetrou o Ituxi retornando ao Purus, num percurso de 2.800 milhas, tentando achar uma rota para a Bolívia por terra ou água. Entrou no rio Aquiri (Acre) penetrando nas terras do atual estado do Acre, retrocedeu ao Purus e entrou no Mucuim, afluente da margem direita, enveredou, via terrestre, por quilômetros de matas alcançando o rio Madeira e retornando, novamente, ao Purus. No seu percurso, contatou diversos povos indígenas, entre os quais os Manchineri, relatando que estes nativos, bastante evoluídos, plantavam, fiavam e teciam o algodão, confeccionando roupas e redes semelhantes àquelas usadas pelos bolivianos que desciam o rio Madeira.

Manoel Urbano, em 1865, novamente, subiu o rio, tentando descobrir no rio Ituxi o enlace entre o Purus e o Madeira. Subiu o Mucuim passando ao salto do Teotônio, no Madeira. Navegou durante quinze dias e empreendeu uma marcha terrestre por dois dias atravessando o divisor de águas entre a bacia dos dois rios. Tentou estender ao Ituxi as mesmas operações de reconhecimento, mas a falta de víveres obrigou-o a retornar.

- João Martins da Silva Coutinho

Em 1862, procurando obter informações mais precisas sobre o Purus, o governo amazonense resolveu organizar uma expedição comandada por uma ‘pessoa possuidora de conhecimentos capazes de realizar uma verificação científica e mais profícua’ da região. A expedição comandada pelo engenheiro João Martins da Silva Coutinho acompanhado por Manoel Urbano da Encarnação, na função de prático, contou, também, com a colaboração do botânico alemão Gustav Wallis encarregado de realizar levantamentos hidrográficos, geológicos, da flora e dos povos indígenas, destacando os ‘meios mais eficazes para vinculá-los à civilização’. Cabia à expedição, ainda, encontrar a passagem do Purus ao Juruá descoberta anteriormente por Manuel Urbano. A expedição subiu apenas até Hiutanaã, sem alcançar o varadouro, mas produziu informações importantes sobre o Purus.

- William Chandless

William Chandless, em 1864, foi enviado pela Royal Geographical Society of London para examinar o que havia de concreto entre esta histórica conexão entre os rios Purus e Madeira. Com equipamentos apropriados Chandless fez várias medições da extensão dos rios e marcou várias coordenadas, chegando a ilustrar o seu trabalho com um mapa do rio, provando a navegabilidade do Purus e concluindo que ele não nascia nos Andes, não sendo o Madre de Dios a sua fonte. O geógrafo inglês também descreveu o relevo, o clima, a hidrografia, a vegetação, a fauna, a vazante e os costumes de alguns povos indígenas. Avançou mais que as expedições anteriores, mas também não conseguiu encontrar uma passagem para a Bolívia. Chandless adentrou o rio Juruá, e teve sua viagem interrompida, em 1867, em decorrência de um ataque dos índios ‘Nawa’ 346 milhas acima da boca do Tarauacá, no local posteriormente denominado seringal Ouro Preto, pouco acima da foz do Riozinho da Liberdade.

Luiz Agassiz, em 1866, no seu livro ‘Viagem ao Brasil (1865-18660)’, comenta no Capítulo XIII – História Física do Amazonas, sob o título Fósseis crustáceos: “Além dos fósseis de que já falei, tive recentemente outra prova da existência da greda na parte meridional da bacia amazônica. Em seu regresso de longa viagem ao Rio Purus, o Sr. William Chandless presenteou-me com uma coleção de restos fósseis do mais alto interesse, pertencentes incontestavelmente ao período cretáceo. Ele mesmo os recolheu no rio Aquiri (Acre), afluente do Purus”.

- Asrael D. Piper

O explorador norte-americano, a serviço do governo boliviano, chegou na Bolívia em 1868, subiu o Purus, em 1871, e estabeleceu um barracão entre os Manchineri da Bolívia, com o propósito de povoá-lo sem ultrapassar a área percorrida por Chandless. Transportou nas suas viagens levas de nordestinos. Em 1880, o povoamento iniciado por Piper ultrapassava a foz do rio Iaco, atingindo a foz do rio Chandless em 1883 e do Santa Rosa em 1884.

- Coronel Antônio Rodrigues Pereira Labre

Labre, em 1871, fundou um povoado que mais tarde se chamaria São Luiz de Lábrea e que viria a se tornar parte do Território do Acre. Foi o primeiro desbravador a viajar de barco de Lábrea ao rio Acre, via Madeira e Beni.

- Capitão Hoefner

Em 1872, Barrington Brown e William Lidstone percorreram o Baixo-Purus, até Huitanaã, embarcados na lancha Guajará, sob o comando do Capitão Hoefner.

- Tenente Augusto José de Souza Soares

Em 1875, uma expedição comandada pelo primeiro Tenente da Armada Augusto José de Souza Soares tinha como missão encontrar a comunicação entre o Madre de Dios e o Purus. Embora Chandless já houvesse afirmado que não existia essa passagem, a dúvida permanecia. O Tenente partiu com a missão de ultrapassar a região já desbravada por Chandless, devendo explorar as nascentes do Iaco e de outros afluentes do Purus. Coletou diversas informações sobre a região, mas não achou a pretendida ligação com a Bolívia.

- O encontro dos ícones

Em outubro de 1905, embarcam no vapor Rio Branco, que estava ancorado na ‘Boca do Acre’, confluência do rio Acre com o Purus, dois ícones da nacionalidade brasileira, Plácido de Castro e Euclides da Cunha. Plácido de Castro tinha comandado o vitorioso Movimento Revolucionário Acreano, que resultou na incorporação das terras bolivianas ao Brasil. Euclides da Cunha chefiara a ‘Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus’, cuja missão era mapear o rio Purus, desde a foz, no Solimões, até suas cabeceiras, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru.

A viagem da Boca do Acre a Manaus durou uma semana e neste período aconteceu o encontro histórico. Euclides da Cunha solicitou a Plácido de Castro que redigisse um histórico da campanha, desde 1902, que culminou com a conquista do Acre. Plácido escreveu os apontamentos a lápis na própria caderneta de Euclides, e manteve longas conversas com o escritor, relatando, além da campanha pela anexação, a dinâmica da extração da borracha, seu ciclo produtivo e a vida nos seringais.

Fontes:

CASTELLO BRANCO, José Moreira Brandão - O Juruá Federal: Território do Acre - Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - Brasil - Rio de Janeiro - Imprensa Nacional, 1930.

TOCANTINS, Leandro - Formação histórica do Acre - Brasil - Rio de Janeiro - Civilização Brasileira, 1979


Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Vila clandestina de garimpeiros atrapalha turismo no maior parque do Brasil





Montanhas do Tumucumaque tem área de 25 cidades de São Paulo.

Parque é usado como base para mineração de ouro na Guiana Francesa.

O Parque Montanhas do Tumucumaque é o maior do Brasil, e também um dos mais isolados. Foi criado em 2002 para se transformar em destino turístico, mas sua atração principal é uma pequena vila, conhecida por Ilha Bela, usada como acampamento-base para os garimpeiros brasileiros que exploram ouro na Guiana Francesa.


Com uma área de 38 mil km² – o equivalente a 25 vezes o município de São Paulo –, o parque fica no extremo norte do país, no Amapá, fazendo divisa com o território que pertence à França. Para cuidar de toda essa terra, totalmente preservada, há cinco pessoas. Eles fazem viagens periódicas à região, já que o parque não tem sede.


“Hoje, boa parte do nosso esforço está centrado na remoção de Ilha Bela”, conta Christoph Jaster, chefe da equipe.

Vila distante

Dentro do parque há poucas minas de ouro, segundo Jaster. Os garimpeiros só criam coragem para explorar as terras brasileiras quando a cotação do metal está muito alta. O problema é a onda de crimes que andam junto com o garimpo ilegal. “É um sistema que traz doenças, violência, prostituição, tráfico”, explica.

As tentativas de desmantelar a pequena vila de Ilha Bela, que tem cerca de 200 habitantes, foram muitas. Em uma operação realizada em fevereiro, um gerador a diesel foi apreendido e precisou ser
retirado de helicóptero. Seu dono cobrava entre 1 e 2,5 gramas de ouro por semana pela energia elétrica fornecida a cada casa.


A dificuldade de acabar com a mineração ilegal se explica pelo isolamento do povoado. O acesso mais comum se faz a partir da Serra do Navio, no Amapá, de onde é necessário andar 90 quilômetros de barco para chegar à vila. “É completamente inacessível para padrões urbanos, mas não para caçadores ou garimpeiros”, diz o chefe do parque.

Com tudo longe e com metais preciosos brotando do chão, o comércio local é inflacionado. De acordo com Jaster, uma vaca ali pode valer 12 mil reais, enquanto um quilo de carne é trocado por um grama de ouro. “Ficar rico no garimpo é quase impossível. O garimpeiro é um ser à beira da miséria.”

Ajuda francesa

A aposta do governo para tirar o parque dos garimpeiros e levá-lo aos turistas é a ajuda da França. No final de 2008, Lula e o presidente francês Nicolas Sarkozy assinaram um acordo de cooperação para o combate ao garimpo ilegal no Brasil e na Guiana Francesa. Também foram planejadas pesquisas conjuntas na região.


Para Jaster, a França também pode ser fonte de turistas. “Imaginamos que o parque amazônico [que fica do lado] da Guiana pode canalizar os visitantes vindos de fora, e esses reflexos serão sentidos pelo Tumucumaque”, pondera.




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