segunda-feira, 13 de abril de 2009


José Cândido e o ‘Rio Negro’          

Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 17 de Abril de 2009

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.
(Quintino Cunha)

Estamos iniciando o planejamento da 2ª fase do Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio-Mar’. Com o objetivo de iniciar uma metódica preparação intelectual sobre nossa próxima jornada, no rio Negro, no final do ano, vamos publicar uma série de artigos que visam apresentar aos leitores um pouco, dos mistérios e encantos dessa jóia de águas negras. A descida do ‘Rio Negro’, de caiaque, é, também, uma homenagem ao importante escritor da literatura brasileira, Euclides da Cunha, no ano do centenário da sua morte. Euclides foi covardemente assassinado em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade.

- Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio Mar’ - 2ª Fase

Percorremos todo o Rio Solimões, de Tabatinga a Manaus, num percurso que superou os 1700 quilômetros, tendo em vista a exploração de afluentes, paranás, furos e lagos ao longo de sua calha. Não atingimos o Mar, como o próprio nome do projeto indica, mas resolvemos que, antes de atingi-lo, devemos percorrer o quarto maior rio brasileiro em vazão: o Rio Negro. Estamos na fase de planejamento e treinamento sem uma data marcada para o início da jornada, tendo em vista que ainda não dispormos dos recursos necessários, da ordem de R$30.000,00 para a execução do projeto.

 - José Cândido de M. Carvalho (Rio de Janeiro, 20/03/1983).

    “Ninguém se forma zoólogo nos livros".

“Desde a infância a Amazônia me fascinava. Aquela visão longínqua da região, um misto de realidade e mito, fora-me proporcionada pelas leituras de viajantes estrangeiros e brasileiros na Hiléia, sobretudo os naturalistas A. R. Wallace, H. W. Bates e G. Cruls e outros. Influência não menor tiveram em minha mente, as histórias regionais a mim contadas pelo então ex-Diretor da Escoa Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa, Minas Gerais, Doutor José Soares de Gouvêa, um autêntico naturalista amador, que fizera cursos especializados sobre borracha na Inglaterra e teve oportunidade de viver algum tempo em Manaus.

Ao ingressar como naturalista do Museu Nacional, já tendo cursado o Mestrado e o Doutorado em Universidades dos Estados Unidos da ‘América,’ surgiu então a possibilidade de ir à Amazônia e estabelecer um confronto com aquilo que sabia através de livros e histórias, e a realidade animal e vegetal da região. Embora sem os recursos mínimos necessários para tarefa dessa envergadura, apenas com uns poucos cruzeiros na mochila de viagem, mas com uma saúde solidamente comprovada e uma disposição para o trabalho fora do comum, da qual lembro-me com saudades, decidi não esperar por oportunidades futuras. Assim foi que, munido dos parcos recursos que possuía, uma bagagem que não ultrapassava umas cinco dezenas de quilos, de muita resolução e coragem, embrenhei-me pelo Rio Negro.

Levava-me o propósito de realizar observações sobre a fauna, a flora e as populações regionais, coligir exemplares, taxidermizá-los ou trazê-los vivos para o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, onde exercia cumulativamente a função de zoólogo. Os indígenas existentes na região foram também alvo de minha curiosidade. Pude observar os sistemas de vida, a economia, educação, enfim o universo natural do índio. Impressionou-me e revoltou-me sobremodo a brutal exploração e escravização pelos brancos, ditos civilizados, sobretudo os regatões, através as barganhas mais desleais e injustas.

É preciso que se diga aqui, às gerações de hoje e do futuro, que, em tempos passados, um naturalista que se embrenhasse pelas matas amazônicas, até então virgens e soberanas, teria que viver em pleno equilíbrio ecológico com a região, enquadrado dentro da cadeia alimentar natural. (...)

 

É comum entre nós o mote de que ‘santo de casa não faz milagres’. Eu, pessoalmente, poderia estender esse dizer aos naturalistas brasileiros que surgiram após o século XIX, quando praticamente se encerrou o ciclo dos viajantes estrangeiros pelo interior do Brasil. Essa impressão me vem à mente quando leio relatos de conterrâneos sobre a Hiléia brasileira, onde apenas naturalistas de terras estranhas são mencionados.

Espero que esta modesta contribuição possa lembrar, aos escritores sobre a Amazônia, que brasileiros, vivendo no Brasil e a serviço de instituições nacionais, também contribuíram para o conhecimento da flora e da fauna hiléianas, percorrendo suas matas, paranás, igarapés, igapós, comendo mixira, bebendo chibé ou cachiri, saboreando farinha com peixe cozido apanhado em mergulhos nos cacuris ou matapis dos in dígenas. Não seria de menos lembrar as vorazes piranhas, os candirus, as picadas dos piuns, catuquins, muriçocas, ca¬rapanãs e mutucas; os morcegos hematófagos e as lendárias boiúnas, representadas pelas grandes sucuris.

Durante sessenta e oito dias tive a ventura de conviver com a natureza e as populações esparsas do Rio Negro, como um ‘doutor botânico’, como ali são chamados os natura¬listas, a ponto de me afeiçoar de modo estreito com a região. Conforme escrevi no fim do meu diário, ‘sozinho, sem doen¬ças ou aborrecimentos, em plena liberdade... nunca pensei que pudesse viver tão primitivamente... espero poder um dia voltar a estas regiões magníficas, onde a natureza certamente imperará soberana por muitas décadas... e a todos... dos quais porventura, ouvir a expressão ‘inferno verde’, irei su¬gerir imediatamente que a palavra ‘inferno’ seja substituída por ‘paraíso’. Sim, ‘Paraíso verde!’.

- Rio Negro, 25/05/1949

“O comandante do ‘João’ é o seu proprietário, José Caminha Pereira da Silva. Esse denodado brasileiro, homem de extraordinária fibra e grande capacidade de trabalho, labuta no Rio Negro a 25 anos, conhecendo todos os seus afluentes e discutindo com acerto os problemas locais e os meios de solucioná-los. Segundo me declarou, as chuvas no Rio Negro começam em abril, sendo a enchente máxima nos meados de junho. Informam os caboclos da região que a água começa a baixar no dia de São João. Essa afirmativa é generalizada em todo o rio. O verão é de julho a março, sendo de janeiro a março a época mais seca, quando é mais intenso o calor. Os temporais são freqüentes, sobretudo nesse período. A região é sadia, muito mais para o Alto Rio Negro. Com a ‘quebra d'água’, surge o impaludismo de maneira intensa, sobretudo nos meses de junho a agosto. A mata alaga-se numa considerável extensão, quilômetros a dentro, principalmente no trecho de Barcelos até Manaus”.

- Rio Negro, 26/05/1949

“Estamos passando por Airão. No meu relógio são 7 horas da manhã. Fizemos excelente viagem, tendo sido atingidos apenas por dois ou três fortes aguaceiros de curta duração, como só acontece nos trópicos. A paisagem torna-se cada vez mais deslumbrante, o rio com uma infinidade de trepadeiras de coloração verde brilhante, com claros aqui e acolá, onde surge uma palmeira ou grupos de aráceas com folhas avantajadas. Por todos os lados impera a mata, soberana e virgem, como que saindo de um mundo aparte, no qual o elemento predominante é a água. No horizonte grossas nuvens ornamentam o céu, desabando curtos temporais de quando em quando. A planície é imensa e a solidão extrema. (...) Airão é atualmente um lugarejo com cerca de 16 casas, na margem direita do rio. Disse-me um morador ali residente há 50 anos, que o local já foi próspero, com 3 casas de comércio e muitas residências. Após a queda da borracha, só restaram essas 16 casas, das quais apenas meia dúzia poderia ter realmente esse nome. Estão reformando algumas delas, fazendo apenas a frente de tijolos, deixando o fundo de madeira mesmo. (...) Mais acima atingimos Carvoeiro, povoado de 12 casas, no momento estabilizado. Fica situado em frente à foz do Rio Jufari, do qual fazem boas referências os locais. Ao contemplar Carvoeiro, lembrei-me de Wallace, que há 100 anos atrás, referindo-se ao local disse: ‘alcançamos Carvoeiro, desolada e semi-deserta aldeia, como são em geral todas as povoações do Rio Negro’. Não seria errado repetir atualmente aquela informação desse naturalista”.

- Rio Negro, 27/05/1949

“Chegamos a Barcelos às 4 horas da tarde, após um tremendo aguaceiro. As chuvas nesta região são fortíssimas, molhando tudo em segundos e deixando seus vestígios estampados na vegetação, residências e embarcações. A cidade é constituída hoje por cerca de 18 casas, já tendo sido sede da capitania por duas vezes, desde sua criação em 1757 até 1791, e de 1799 até 1804. Disseram-me que só a guarnição militar de Barcelos era superior a 600 homens. Hoje, a vida do lugar resume-se na Missão Salesiana e algumas repartições estaduais. Foi aí que, em 1728, foram aldeados pelos carmelitas os índios Manáus, Barés e Baniuas, criando-se, a seguir, a primeira casa de ensino do Amazonas (seminário dos Carmelitas) . Com sua passagem para capital da Capitania de São José do Rio Negro, foram elevadas à categoria de vida as aldeias Mariuá, Bararoa e Itarendaua. No início do seu segundo período como capital, um censo realizado para o Rio Negro dava-lhe um total de 15.480 habitantes”.

- Tapurucuara, 29/05/1949

“Ao banhar-me no rio, em frente à ilha, fui picado duas vezes na perna por algum animal, ficando bem viva e sangrando a ferida onde mordeu. Segundo os moradores do local, aquilo não era outra coisa senão mordidelas de candirus, (Pygidiidae) que se aproveitavam das pessoas no momento do banho para se alimentar. Não senti dor alguma no momento das mordidas, só as descobrindo posteriormente, pelo sangue que escorria das mesmas. Não me foi possível, por mais que tentasse, capturar exemplares desse animal”.

- Rio Negro, 30/05/1949

“Comi, pela primeira vez, uma farinha de peixe denominada piracuí. É feita de peixe moqueado bem torrado, socado num pilão com espinhas e tudo, conservando-se assim em boas condições durante muitos dias”.

- Uaupés, 01/06/1949

“O nome Uaupés é proveniente de Uaupé ou Boapé, antigo tuxaua residente com seu grupo na foz do rio desse nome, no local onde hoje se ergue a povoação de São Joaquim. Esse nome ficou conhecido desde a metade do século XVIII, quando ali chegaram os primeiros bandeirantes do Pará. Uaupé é também o nome de um pássaro, a jaçanã, em língua geral”.

Alexandre Rodrigues Ferreira, na sua ‘Viagem Filosófica pelas capitanias do Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá’, escreve: “Leio nos diaristas, que o verdadeiro nome do rio Uaupés é Ucaiari, que quer dizer na língua dos Manaus e dos Barés rio de água branca (...)

- Taracuá, 06/06/1949

“Em Taracuá, pela primeira vez ouvi falar em daracubi, ou seja, uma espécie de minhoca que ocorre nas folhas das bromélias durante a estação chuvosa, sendo de tamanho regular e ótima isca para pesca. Os índios retiram as bromélias com as daracubis e dependuram-nas em suas casas ou junto às canoas, utilizando-se das mesmas em suas pescarias durante grande parte do ano. Segundo eles, essa minhoca conhece quando deve abandonar a bromélia, cortando e deixando cair pequenos fragmentos da folha e acompanhando seus movimentos lá de cima. Não pude compreender bem a história narrada com apenas meia dúzia de palavras em português e devo confessar que muito pouco aprendi do tucano, até o presente momento. A minhoca comum recebe, nesta região, a designação de chibui. (...) Vim observar aqui coisas interessantes e que muito me alegraram. Uma delas foi a presença do marimbondo chamado no Xingu de tunú tunú (Stictia signata) junto ao gado da Missão. Observei que eles rondavam constantemente as vacas com o fito de apanhar as mutucas que vinham sugar estas últimas. Às vezes capturam, como observei, mutucas de grande porte, caindo com elas ao solo e dando cabo das mesmas em segundos”.

- Taracuá/Pari, 08/06/1949

“Cabe-me registrar aqui, também, a existência, no Tiquié, como desde o médio Rio Negro, de um peixinho que, perseguido, corre alguns metros sobre a água, tal qual peixe voador, Às vezes dão corridas de mais de 20 metros”.

- Pari Cachoeira, 10/06/1949

“Aproveitei a manhã coletando num trecho da mata alta e sombria. Foram comigo três índios, todos muito lerdos e desinteressados. Pude recolher vários aradidíos e insetos micetófagos interessantes. A seguir, como estivesse inteiramente molhado, vim coletar peixes na cachoeira. Consegui cerca de 21 espécies de peixes miúdos, revistando uma série de matapis dos índios ali colocados. Os índios fazem barragens de um lado da cachoeira, justamente onde o peixe deve subir e ali colocam seus matapis ou jiquis. Excusado será dizer que conseguem seu almoço ou jantar em poucas horas, nesta época do ano”.

- Iauretê, 17/06/1949

“Passei a cachoeira numa canoa remada por 4 índios. Valeu a pena, pois pude verificar bem de perto a perícia e arrojo daqueles homens. Os remos batendo compassadamente nos lados da canoa produzem um som surdo, o que parece dar-lhes mais ânimo. A luta iniciada nas primeiras corredeiras, aos poucos assume aspecto épico, sendo preciso rapidez e máxima energia. As ondas, borbotões ou remoinhos, lançam-se furiosos de encontro à embarcação e não poucas vezes a inundam parcialmente. Lentamente, aos solavancos, vai subindo a canoa, por sobre o abismo, como que desafiando a morte. Os índios, calados, músculos tensos, dão tudo que sua força lhes permite. Pouco a pouco, aproximamo-nos da margem oposta e certo alívio cai sobre todos. Mais uma vitória do homem contra a força bruta da cachoeira, fato esse que nem sempre acontece”.

- Içana, 22/06/1949

“Após uma noite mal dormida em Umiri, chegamos à povoação de Içana às 9 horas da manhã. Ali procurei o Sr. Valentin Garrido, para quem levava um telegrama. Recebeu-me muito bem, servindo-nos café e prestando boas informações sobre a região. Disse-me que na casa em que residia trabalharam Koch-Grümberg e Hamilton Rice durante suas expedições ao Amazonas”.

- Içana/Acutiacanga, 25/06/1949

“Também cabe anotar aqui a autoridade sem par de alguns tuxauas. Na sua oca tudo é feito através de suas ordens ou suas mãos. A ninguém é permitido tratar diretamente com as mulheres ou com os homens da aldeia, sendo de boa ética primeiro consultar o tuxaua ou pedir-lhe que mande fazer isso ou aquilo, mediante tal ou qual retribuição. Está neste caso o contrato de homens para o trabalho de campo ou remo. Nas aldeias onde não haja tuxaua é de bom alvitre tratar com os mais ativos, fato facilmente verificável dando-se uma olhadela em suas residências”.

- Tunuí, 29/06/1949

“Os índios desse local, quase todos banivas, são numerosos e muito tímidos. Conhecem mal o português. Muitos trazem claramente estampadas no corpo as marcas brancas da doença por eles denominada de ‘purupuru’. Esse mal, ocasionado por um espiroqueta do sangue circulante, (Treponema carateum) parece ser responsável, além de outras coisas, por um desequilíbrio da pigmentação da pele, albina nuns pontos e inteiramente melânica em outros, notadamente em torno dos olhos e do nariz”.

- Boca do Içana, 04/07/1949

“Acabada a reza, o tambor rufou nova e fortemente, desta vez em compasso diferente e já dentro de casa. Começou aí a ‘dança do sucurijú’, todos em círculo, caminhando em determinada direção e, de quando em vez, um par entrando no meio da roda e requebrando-se a valer. A dama era obrigada a acompanhar os requebros do homem, sob pena de ser estrepitosamente vaiada. A seguir, dançou-se o ‘macaco’, dança só para homens, na qual, juntando uma perna na do adversário, procura-se derrubá-lo ao chão, tentando elevá-lo o mais possível do mesmo. Primeiro uma perna, depois a outra, sem parar a dança, pulando como macacos, donde lhe vem o nome. Terminada a dança, os componentes da roda fazem um tremendo bolo, juntando-se, com a perna direita erguida, de forma que aqueles que não conseguem penetrar nessa roda acabam também sendo fortemente apupados pelos assistentes”.

- Cucuí, 10/07/1949

“Cucuí foi criada no governo de Floriano para servir como colônia de reclusão para os políticos conspiradores. Hoje, somente resta a lembrança e algumas histórias, não existindo, no local, pessoa alguma ligada a isso. Funciona aqui um posto de fronteira de nosso exército, no momento com 18 homens. Nestes últimos anos parece que o destacamento tem passado por muitas agruras, estando, atualmente, atravessando um período de reconstrução. Fica o lugarejo um pouco abaixo da linha da fronteira, do lado esquerdo do Rio Negro, ao sul da Serra de Cucuí, um pouco acima, já em território venezuelano. Numa ilha bem no meio do rio, existe um marco delimitando as fronteiras do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. Dali para cima, a Colômbia fica à direita e a Venezuela à esquerda. A serra é muito visível, tendo grande parte de sua seção mais elevada, nua ou apenas recoberta por vegetação crescente sobre a pedra”.

- Marabitanas, 13/07/1949

“Deixamos Cucui às 9,12 horas da manhã. Levo comigo o Graciliano, meu companheiro desde Uaupés. A viagem de descida foi ótima. Ao passar por Marabitanas, mostraram-me o lugar do antigo forte dos portugueses. Aqui por perto deve ter existido o arraial de Avidá, onde o jesuíta Manoel Romão, superior das missões espanholas do Orinoco, aportou em 1744, trazido por Xavier de Morais. Foi ele o primeiro castelhano a penetrar nestas paragens, demonstrando grande surpresa por não ter encontrado aqui os gigantes que povoaram a região, conforme crença geral entre os índios e espanhóis da Venezuela”.

- Uaupés, 18/07/1949

“Julgo que Wallace não passou do domínio da teoria quando, referindo-se à agricultura local, assim se expressou: ‘quando eu considero a soma excessivamente pequena de trabalho que é necessário nesta região, para converter a floresta virgem em verdejantes pradarias ou em férteis plantações, quase chego a desejar vir para cá com meia dúzia de amigos dispostos para o trabalho a fim de usufruir a região’. Muitos outros também disseram a mesma coisa, porém foram pouquíssimo que tentaram realizar trabalho real, quer criando animais, quer tentando lavouras. Na verdade a coisa é bem outra, bastando ao viajante alguns meses na região para se aquilatar do fato. É o próprio Wallace que, linhas adiante cai em flagrante contradição ao dizer: ‘em toda região do Amazonas jamais foram tentadas coisas como a cultura e a limpeza da terra’. Ao citar os dizeres de Wallace para o Sr. Graciliano Gonçalves, ele deu um sorriso de incredulidade, retrucando: ‘Esse inglês com certeza nunca plantou uma roça’. No período da tarde cuidei da secagem do material já obtido e do seu acondicionamento para a viagem de regresso”.

- Manaus, 28/07/1949

“Pela madrugada atingimos Paricatuba, onde o Rio Negro se estreita tanto que só tem, aproximadamente, um quilômetro de largura. Disse-me o comandante do ‘João’ que a profundidade nesse ponto é superior a 120 metros. Um pouco adiante, a baía do boiuçu, onde são perigosos os banzeiros pela violência que imprimem às ondas. Experimentamos, já ao chegar a Manáus, os efeitos desse fenômeno. O convés do ‘João’ foi varrido pela água e não foram poucas as vezes que os respingos do rebate das ondas nos atingiram. Chegamos ao porto com calor abrasador. Após certo trabalho, consegui um caminhão para levar meus animais até ao aviquário, onde cheguei às duas horas da tarde”.

* Fontes:

CARVALHO, José Cândido de M. - Notas de viagem ao Rio Negro - Brasil - São Paulo, 1983 - Editora GRD.

FERREIRA, Alexandre Rodrigues -. Brasil - Rio de Janeiro, 1971 - Conselho Federal de Cultura.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

90630 150 - Petrópolis - Porto Alegre - RS

Telefone:- (51) 3331 6265

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br


sábado, 11 de abril de 2009

Reforma da rodovia BR-163 terá que respeitar meio ambiente


Anúncio de obras na estrada fez triplicar o desmatamento na região. 
Previsão é que 800 mil pessoas se mudem para os entornos da rodovia.


Depois de trinta e três anos, o Exército volta à rodovia BR-163, que liga Cuiabá, em Mato Grosso, a Santarém, no Pará. A missão deles é terminar o asfaltamento da rodovia, que está em péssimas condições.

 

Para dar conta da tarefa, os militares foram buscar ajuda de quem participou da primeira etapa da construção da estrada, na década de 1970. “Eu esperava que esse asfalto tivesse saído na época em que nós fizemos a BR, porque deixamos tudo no jeito quase só para asfaltar”, afirma Fernando Pedroso da Silva, coordenador de pessoal de campo. 


Três décadas depois, o manual de construção para a Amazônia é outro. As árvores devem ser preservadas. A área aberta para o trânsito dos caminhões terá de ser reflorestada. 

Outra preocupação de hoje, em que a preservação do meio ambiente é prioridade, é garantir condições para que os animais possam atravessar a estrada sem correr risco de morte. Para isso vão ser construídos corredores por baixo da rodovia. 

O maior desafio, contudo, não é proteger a travessia de animais. O mais difícil será conter a voracidade do homem. O apetite dos desmatadores foi sentido assim que o Ministério do Meio Ambiente deu o sinal verde para o asfalto. 

“Desde a licença prévia da BR-163, em 2005, até hoje, triplicou o desmatamento da região, e isso antes do asfalto”, relata o Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Ele admite que faltou fiscalização, e sabe que o asfalto vai atrair mais gente. 

A previsão é de que a população na área de influência da BR 163, cresça dos atuais 2,1 milhões para 2,9 milhões de pessoas até 2015. “A única possibilidade de defender o bioma amazônico é instalar a legalidade ambiental com planejamento”, afirma Minc. 

Há dois anos, a lei determina que quase metade da região não pode ser modificada. São unidades de conservação, terras indígenas e áreas do Ministério da Defesa. Terras hoje ocupadas pela agricultura e pecuária devem ser regularizadas, sem expansão.


Colaboração de empresários

“Não faz nenhum sentido para pecuária derrubar um hectare a mais. E para a área de produção de grãos, nós não precisamos avançar o bioma amazônico, ao contrário, ele nem é adequado”, defende o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. 

O equilíbrio da Amazônia depende também da colaboração dos empresários, que devem dizer “não” para quem produz carne e madeira ilegal. Pessoas que saibam valorizar esforços como o das mulheres da Floresta Nacional do Tapajós, no Pará. Há dez anos, elas transformam o látex extraído das seringueiras em bolsas. 
“A gente vende para os turistas, para a fábrica, para São Paulo. Já foi também para o Rio, Inglaterra, França...”, comemora Elgesi Alves Dias, costureira da comunidade da Floresta de Tapajós. Na fauna tapajós estão oito mil pessoasl.

Enquanto isso, na Floresta Nacional do Jamanxim, criada pelo governo há três anos, só há dois funcionários para tomar conta de uma área de 1,3 milhões de hectares, o equivalente a metade do estado de Alagoas.


A falta de apoio também compromete dezenas de assentamentos.

 

No trecho de 113 km em que a Transamazônica coincide com a BR-163, a natureza foi devastada. Pequenas comunidades estão em processo de extinção por falta de assistência.

 

Uma fábrica de farinha, por exemplo, foi doada à comunidade São Francisco pelo governo do Pará em 1994, mas os colonos só tiveram dinheiro para fazê-la funcionar em novembro de 2008, 14 anos depois. 
Na longa espera pelo asfalto, o próprio representante do Ibama no município de Sinop, em Mato Grosso, alerta: o estado tem que estar presente. "Que a sustentabilidade seja uma opção concreta e real para as pessoas, não seja só a degradação da floresta através da pecuária e da soja. E isso, sem a presença do estado, sem a fiscalização, é impossível."


Mas o asfalto só chegou a pouco de mais de 700 dos quase 1.800 quilômetros da rodovia. “Essa obra significa muita coisa para o Exército. Retornar a ela é um momento histórico que a gente está vivenciando”, conta o Coronel Miranda. 


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Ainda, De Gaulle e a Guerra da Lagosta


Ainda, De Gaulle e a Guerra da Lagosta

Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 07 de Abril de 2009

“Le Brésil n’est pas um pays sérieux”
- O Brasil não é um país sério (Charles de Gaulle)

- O Contestado Parágrafo

“Frase atribuída ao presidente francês Charles André Joseph Pierre-Marie De Gaulle, por ocasião da crise diplomática entre Brasil e França em 1962. A apreensão de embarcações francesas que pescavam lagostas em águas territoriais brasileiras teria irritado Charles Gaulle levando-o a afirmar que ‘o Brasil não era um país’. Na realidade o autor da frase é o embaixador brasileiro na França, Carlos Alves de Souza Filho. O embaixador depois de discutir com De Gaulle a questão da ‘guerra da lagosta’, relatou ao jornalista Luiz Edgar de Andrade, na época correspondente do ‘Jornal do Brasil’ em Paris o encontro dizendo-lhe que falaram sobre o samba carnavalesco ‘A lagosta é nossa’ e das caricaturas que faziam do general De Gaulle, terminando a conversa com a seguinte frase: ‘Edgar, le Brésil n'est pas un pays sérieux’. O jornalista, por sua vez, encaminhou o despacho para o jornal e a frase acabou sendo outorgada a De Gaulle”.

- Polêmica Frase, Controversa ‘Guerra’

Por diversas vezes a polemica frase, atribuída ao presidente francês Charles André Joseph Pierre-Marie De Gaulle, e a controversa e esquecida história ‘Guerra da Lagosta’, que causou estremecimento nas relações franco-brasileiras, no início da década de sessenta, voltam à baila quando faço menção a elas nos meus textos. Listo, abaixo dois artigos, completos e elucidativos, escritos por Cacau Menezes e Guilherme Poggio que , penso, deverão esclarecer por completo as referidas questões.
- Frases que viraram Mitos - Jornalista Ozias Alves Jr (23/01/2008)
“Na nota intitulada ‘Vergonha’, Cacau Menezes escreveu na sua coluna, no Diário Catarinense, de quarta (23 de janeiro de 2008): ‘Quando o general De Gaulle teria dito que o Brasil não era um país sério, parece que pensou em hoje.’ Não é a verdade. De Gaulle nunca disse: ‘O Brasil não é um país sério’. No entanto, ganhou a fama e essa frase é constantemente repetida. 

Segundo o escritor Fernando Jorge, a frase ‘le Brésil n'est pas un pays sérieux’ - O Brasil não é um país sério - foi dita pelo diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza, que registrou em seu livro ‘Um Embaixador em tempos de crise’, publicado em 1979 pela editora Francisco Alves. Nas páginas 316 e 317 do livro, o diplomata conta que, nos anos 1960, teve um encontro em Paris com o general De Gaulle para analisar o problema dos pesqueiros franceses que estavam invadindo águas territoriais brasileiras para pescar lagostas. O episódio ficou conhecido como ‘Guerra da Lagosta’. 

Depois do encontro com De Gaulle, o diplomata Carlos Alves de Souza foi a uma recepção na casa de um deputado onde encontrou-se com um jornalista chamado Luiz Edgar de Andrade, que mais tarde tornou-se editor na TV Globo”. 
O repórter perguntou sobre o encontro com De Gaulle. O diplomata comentou ter sido informado que o incidente, na realidade coisa de pouca importância, acabou transformando-se até mesmo em samba carnavalesco intitulado ‘A Lagosta é nossa.’ Então o diplomata terminou a conversa assim: ‘Luiz Edgar. Le Brésil n´est pas um pays sérieux.’
O repórter mandou um telegrama para o Brasil não deixando clara a autoria da frase. Dita em francês, a frase acabou atribuída a De Gaulle e, para espanto do diplomata que a proferiu, ‘pegou’. Carlos Alves de Souza contou a história em detalhes em seu livro e, em 9 de maio de 1979, foi publicada entrevista sua no ‘Jornal do Brasil’, ocasião na qual reafirmou ser ele o autor da frase e não De Gaulle”.

- Operação Lagosta, A guerra que não aconteceu (Guilherme Poggio)

Surge o interesse pela lagosta
“Durante séculos, a captura da lagosta ao longo da costa do Nordeste brasileiro foi realizada de forma rudimentar, somente para subsistência das famílias da região ou abastecimento do pequeno mercado local. A partir da década de 1930 o crustáceo começou a ter maior valor comercial. 
Mas esta atividade econômica só despertou o interesse de companhias estrangeiras na década de 1950, quando empresas japonesas decidiram enviar barcos de pesca para o litoral do Nordeste. A licença foi emitida e, em contrapartida, o Governo Brasileiro exigiu a nacionalização de parte da tripulação dos barcos. Com dificuldade em cumprir tal exigência, os japoneses preferiram abandonar a pesca e comprar a lagosta diretamente dos jangadeiros brasileiros, obtendo uma boa lucratividade. Desta forma, estabeleceu-se uma atividade regular de captura naquela região, tornando-se realmente uma atividade econômica de valor. Em paralelo, a atividade contribuiu para o desenvolvimento da indústria de congelamento, além do aumento da atividade nos portos de Fortaleza e Recife por causa da exportação do crustáceo. Em 1955 exportaram-se 40 toneladas de lagosta. Cinco anos depois, este número subiu para 1.200 toneladas. 

O interesse francês na costa do Nordeste surgiu no início da década de 1960, ou seja, alguns anos depois dos acordos com o Japão. Uma delegação foi enviada ao Recife para negociar a vinda de três barcos de pesca franceses com o intuito de realizar pesquisas sobre viveiros de lagosta. A CODEPE, órgão federal responsável pelo desenvolvimento da pesca no país, emitiu uma autorização de pesquisa em março 1961, válida por 180 dias. Esta licença contemplava apenas três embarcações. 
No entanto, autoridades brasileiras já estavam preocupadas quanto ao real motivo da vinda dos pesqueiros. Foi decidido que representantes da Marinha do Brasil embarcariam nos navios franceses para atuar como fiscais de pesca. Após alguns embarques, os militares constataram que os navios estavam realmente capturando lagosta em larga escala e realizando pesca predatória com arrasto. Além disso, a licença de pesquisa emitida limitava-se a três barcos e a França enviou quatro. A partir do relatório dos militares embarcados decidiu-se pelo cancelamento da licença e o último pesqueiro partiu de volta para a França no final de abril de 1961. 
Em novembro os franceses solicitaram uma nova licença para a realização de pesquisas e experiências no litoral nordestino. Desta vez foi argumentado que elas seriam realizadas na plataforma continental, fora das águas territoriais brasileiras. E assim, uma nova leva de pesqueiros franceses chegou ao litoral nordestino no final de 1961.

Apresamentos realizados pela MB

Os desentendimentos começaram logo no início de 1962. No dia 2 de janeiro a corveta Ipiranga apresou o pesqueiro francês Cassiopée, cerca de dez milhas da costa, por estar capturando lagosta sem autorização do Governo Brasileiro. E pouco tempo depois a corveta Purus avistou dois pesqueiros (Françoise Christine e Lonk Ael) próximos à costa do Rio Grande do Norte, mas por determinação do Estado Maior da Armada (EMA) não foram apresados. 

O apresamento do Cassiopée gerou uma batalha diplomática entre os dois países que se estendeu por todo o ano de 1962. O Brasil sustentava a tese de que a lagosta era recurso econômico de sua plataforma continental (independentemente de estar no limite do mar territorial) e somente a ele caberia a emissão de autorização de captura do crustáceo. A França argumentava que a lagosta era um ‘peixe’, pois se deslocava de um lado para o outro dando saltos e não andando sobre a plataforma continental. Neste caso aplicar-se-iam (segundo os franceses) as regras da convenção de Genebra de 1958, que estabelecia as bases para pesca em alto mar (é importante destacar que nenhum dos dois países tinha assinado tal convenção). Segundo o comandante Paulo de Castro Moreira da Silva a fraca argumentação francesa levaria à seguinte frase: 
“por analogia, se lagosta é um peixe porque se desloca dando saltos, então o canguru é uma ave”.

A batalha diplomática não intimidou os pesqueiros franceses, e muito menos reduziu a ação dos navios da MB. O contratorpedeiro Babitonga apresou o pesqueiro francês Plomarch no dia 14 de junho e o Lonk Ael no dia 10 de julho ao longo do litoral do Rio Grande do Norte e a corveta Ipiranga os pesqueiros Folgor e Françoise Christine em agosto do mesmo ano no litoral cearense. Os capitães dos barcos eram orientados quanto à irregularidade cometida, ‘convidados’ a assinar um termo de compromisso e não mais voltar à costa brasileira (embora muitos assim o fizeram).
No início de 1963, uma missão francesa chegou ao Brasil com o intuito de negociar a questão da pesca da lagosta, bem como estabelecer as bases comerciais de um possível acordo binacional. Esta mesma missão informou que dois barcos de pesca já se dirigiam para o litoral brasileiro. Através do Ministério das Relações Exteriores, o Brasil respondeu que a permissão não seria dada aos barcos e solicitou que o governo francês não permitisse a vinda destes para não prejudicar as negociações em curso. A França não só confirmou a vinda dos dois barcos, como também anunciou a partida de outros, independentemente da ameaça de serem apresados. 

Sabendo da vinda de pesqueiros franceses para o litoral nordestino (sem a devida autorização), a MB colocou em alerta os seus navios que executavam patrulha na área. No dia 30 de janeiro, a corveta Forte de Coimbra detectou a presença de três pesqueiros estrangeiros e solicitou que os comandantes dos mesmos rumassem para Natal. Em função da resposta negativa, foi solicitada novas instruções de terra. O comandante do 3º Distrito Naval não vacilou e foi enérgico em suas palavras. A corveta deveria usar a ‘força na medida do necessário’. Possivelmente os franceses não entendiam português, mas o soar do alarme de ‘postos de combate’ e a visão da tripulação da corveta guarnecendo o canhão da proa e as demais metralhadoras de 20 mm mudou a idéia dos comandantes dos pesqueiros. 

No dia 5 de fevereiro os barcos e suas respectivas cargas foram liberados e, por intervenção do presidente Goulart, uma autorização para captura da lagosta foi emitida para os barcos franceses no dia 8. A mesma decisão que agradou os estrangeiros gerou um grande desconforto interno para o governo federal. Por força da opinião pública e de pressões políticas (principalmente vindas no Nordeste), o governo teve que voltar atrás e cancelar a autorização. A decisão foi tomada no dia 18 de fevereiro e os pesqueiros deveriam encerrar a captura da lagosta no dia 20. 
A mudança de atitude do Governo do Brasil despertou a ira do presidente de Gaulle.

 Alguns atribuem a este episódio a origem da frase: 
“Le Brésil n'est pas un pays serieux” 
(O Brasil não é um país sério)
Porém, numa outra versão dessa estória, o embaixador brasileiro em Paris (Alves de Sousa), em seu livro de memórias, afirmou que a frase foi dita por ele numa entrevista para um repórter brasileiro.

De qualquer forma, as relações com o Governo da França, que já não eram boas, degradaram-se rapidamente após a notícia da suspensão da autorização. A reação foi enérgica e desproporcional à situação. Por ordem do presidente de Gaulle, um navio de guerra francês seria enviado para proteger os barcos pesqueiros.
Extraordinariamente o embaixador brasileiro em Paris reuniu-se com o Secretário-Geral do Quai-D'Orsay. O embaixador francês foi alertado sobre as graves conseqüências que poderiam advir da presença de uma embarcação militar francesa no Nordeste e que o mesmo não deveria desprezar a hipótese de irrupção de um eventual conflito. A resposta francesa, direta e curta, limitou-se à seguinte frase: ‘já estamos em conflito’. A diplomacia estava em cheque e uma escalada militar começava a tomar forma. Estaria a MB devidamente equipada para enfrentar esta crise?”

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB) 
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS) 
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90630 150 - Petrópolis - Porto Alegre - RS
Telefone:- (51) 3331 6265
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Johann Natterer e o ‘Rio Negro’


Johann Natterer e o ‘Rio Negro’

1. Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 06 de Abril de 2009


Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.
(Quintino Cunha)

Estamos iniciando o planejamento da 2ª fase do Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio-Mar’. Com o objetivo de iniciar uma metódica preparação intelectual sobre nossa próxima jornada, no rio Negro, no final do ano, vamos publicar uma série de artigos que visam apresentar aos leitores um pouco, dos mistérios e encantos dessa jóia de águas negras. A descida do ‘Rio Negro’, de caiaque, é, também, uma homenagem ao importante escritor da literatura brasileira, Euclides da Cunha, no ano do centenário da sua morte. Euclides foi covardemente assassinado em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade.

- Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio Mar’ - 2ª Fase

Percorremos todo o Rio Solimões, de Tabatinga a Manaus, num percurso que superou os 1700 quilômetros, tendo em vista a exploração de afluentes, paranás, furos e lagos ao longo de sua calha. Não atingimos o Mar, como o próprio nome do projeto indica, mas resolvemos que, antes de atingi-lo, devemos percorrer o quarto maior rio brasileiro em vazão: o Rio Negro. Estamos na fase de planejamento e treinamento sem uma data marcada para o início da jornada, tendo em vista que ainda não dispormos dos recursos necessários, da ordem de R$30.000,00 para a execução do projeto.

- Emile Auguste Goeldi (1896)

"O mais zeloso e o mais fecundo colecionador zoológico que pisou a América do Sul. Não o julguem pelo número de livros por ele publicados, pois são poucos - também não o julguem pela pequena ou nenhuma importância, que acaso lhe diga qualquer dicionário ou enciclopédia daqueles que vos caiam primeiro às mãos na biblioteca que mais próxima for, pois os respectivos autores, por via de regra, o desconhecerão. Explica-se toda nitidez aqueles que pisam as mesmas sendas, que o naturalista cujo nome encima estas linhas, aos cultivadores do mesmo campo, aos caracteres que alguma afinidade possuem para as predileções científicas e para o rumo específico da ocupação intelectual - e estes são poucos. Dá-se com Natterer o mesmo que com o arquiteto que morre, deixando de um grande e complicado edifício apenas prontos os alicerces: quantos terão os conhecimentos profissionais e o poder mental para adivinhar o plano geral do seu todo e nos seus pormenores?"

- Johann Natterer

Johann Natterer, naturalista e explorador austríaco, nasceu em 9 de novembro de 1787 em Laxenburg, pequena cidade ao sul de Viena, Áustria. Era filho do falcoeiro imperial Joseph Natterer, cujo interesse voltava-se também ao colecionamento de aves e insetos. Joseph montou uma magnífica coleção que, em 1793, foi adquirida pelo imperador austríaco Francisco II incorporando-a aos ‘salões do imperial gabinete zoológico’. Influenciado pelo pai com quem aprendeu a arte da taxidermia, dedicou-se ao estudo da química, anatomia e história natural nos institutos de ensino superior vienenses, enquanto desenvolvia seus dotes de desenho e linguística. 

Depois de realizar, bem sucedidas, excursões científicas na Hungria, Dalmácia e Itália, Natterer passou a ser considerado e respeitado como perito na sua especialidade. Em 1816, foi nomeado assistente da Coleção Zoológica Imperial, ganhando a necessária visibilidade junto à comunidade científica e política o que lhe permitiu, mais tarde, integrar a equipe de naturalistas que veio ao Brasil no início do século XVII.

- Viagem de Naturalistas ao Brasil

A Expedição Austríaca ao Brasil (Österreichische Brasilien-Expedition), foi organizada e financiada pelo Império Austríaco e realizada entre 1817 e 1835. Seu principal objetivo era investigação científica nas áreas da Botânica, Zoologia e da Etnologia. A expedição teve como principal apoiador o príncipe, diplomata e estadista Klemens Wenzel Lothar Nepomuk von Metternich. Metternich foi presidente do Congresso de Viena onde influenciava, decisivamente, as decisões que ali eram tomadas.

Em 1817 chegaram ao Brasil, três importantes grupos de naturalistas selecionados por E. Schreiber, diretor do Museu de Viena. Os pesquisadores engajaram-se à esquadra que trazia a arquiduquesa austríaca Leopoldina Carolina Josefa para casar-se com D. Pedro. O grupo mais completo era liderado pelo naturalista tcheco Johann Christian Mikan, acompanhado do jardineiro Heinrich Scott, dos pintores Thomas Ender, Franz Joseph Frübeck e Johann Buchberger, do bibliotecário Rochus Schüch e, dos coletores Johann Natterer e seu ajudante Dominick Sochor. A participação mais importante desse grupo deve, sem sombra de dúvida, ser credenciada a Natterer que, por quase 18 anos (1817-1835), dedicou-se à coleta e preparação de material biológico e etnográfico em enorme extensão do território brasileiro.

- Johann Natterer no Brasil (1817-1835)

Ao desembarcar da fragata Augusta, no Rio de Janeiro, em 5 de novembro de 1817, Natterer tinha 29 anos e uma experiência considerável como caçador, preparador, desenhista e linguista. Em decorrência de alguns problemas administrativos e de liderança se afastou do grupo e decidiu trabalhar somente com seu ajudante Dominick Sochor. Rumou para ao sul, percorreu o litoral fluminense, São Paulo, entrou no Paraná até Paranaguá, e retornou ao Rio de Janeiro. Passou, então, por Santos e, em seguida, partiu em direção ao Brasil Central. No alto Guaporé contornou a fronteira com a Bolívia, passando por Rondônia, e desceu o Rio Madeira até o Amazonas. 

- Johann Natterer no Rio Negro

Sozinho, seu companheiro Sochor sucumbira à malária, no Mato Grosso, em 1826, resolveu subir o Rio Negro até atingir o extremo noroeste brasileiro e, depois, o estado de Roraima, pelo Rio Branco. Percorreu o Rio Branco desde a sua foz até os rios Uraricoera e Tacutu, de onde atingiu o Cotingo e o Maú. Uma jornada de aproximadamente dez meses em que elaborou anotações e coletou espécimes da avifauna, entomofauna e da ictiofauna do vale do rio Branco.
Natterer se destaca, dentre os demais pesquisadores, pelo período despendido em campo, quase 18 anos, pela enorme capacidade de trabalho de campo e uma disposição inquebrantável em cumprir os objetivos de coletar, trabalhar zelosamente na preparação dos exemplares e ilustrar tudo o que podia. Rotineiramente despachava para Viena remessas de exemplares obtidos, evitando a deterioração, decorrente do ambiente quente e úmido dos trópicos, fungos, saques e destruição por parte de pequenos animais como ratos e formigas.
Para a Ornitologia, trouxe informações biológicas até então ignoradas ou desconhecidas da ciência. As anotações sobre as peles de cada espécime receberam uma atenção especial nas quais relatava cuidadosamente dados importantes como características morfológicas, anatômicas e até comportamentais. Uma parte de seus manuscritos foi destruída, em 1849, no incêndio do Museu de Viena, perdendo-se um dos maiores e mais importantes bancos de dados sobre aves tropicais. Felizmente grande parte da coleção de aves coletada no Brasil encontra-se intacta, sob a guarda do Naturhistorischen Museum de Viena.

- Casamento em Barcelos

Em 1831, casou-se em Barcelos, primeira capital do Amazonas, com a brasileira Maria do Rego, tendo com ela três filhos. Embora Maria do Rego tivesse nome português era uma índia da etnia Mura. O austríaco levou a família para a Áustria, a esposa e duas crianças não resistiram ao primeiro inverno. Só sobreviveu a filha mais velha, Gertrude. Maria do Rego havia batizado a filha com esse nome em homenagem à curandeira local, ‘Dona Gertrudes’, que salvara sua vida por mais de uma vez. Gertrude casou-se com um nobre austríaco chamado Julius Schröckinger Ritter von Neuenberg e a partir de então passou a ser conhecida como baronesa Gertrude von Schröckinger. 
Alfred Russel Wallace, em suas ‘Viagens pelos rios Amazonas e Negro’ menciona na sua obra ter encontrado outra filha do pesquisador: “Logo que a vi, fiquei imaginando se não seria ela a jovem de quem o Sr. Lima me falara, dizendo tratar-se da filha que o célebre naturalista alemão Natterer tivera com uma índia. Ti-ve nova oportunidade de vê-Ia em Guia, e verifiquei que minha suposição fora correta. Ela devia ter uns 17 anos, estava casada com um índio e já tivera alguns filhos. Era um belo espécime da magnífica raça oriunda do cruzamento dos sangues saxão e indígena”.

-  Johann Natterer no Brasil (1817-1835)

“Em 1835, as ruas de Belém do Pará fervilhavam de barricadas e tiroteios. A gente pobre, caboclos, índios, negros e mulatos, chamados de cabanos, havia tomado o governo à força reivindicando a autonomia da província. Era a Cabanagem (1831-1836), uma das mais violentas revoltas civis do Brasil. Em plena luta, um europeu branquelo e de cabelos encaracolados esgueirava-se entre as vielas do porto. Correndo risco de morrer, ele carregou dezenas de caixas cheias de plantas e animais para uma corveta inglesa fundeada na baía. Mas os cabanos descobriram seu depósito e roubaram tudo o que encontraram, dinheiro, roupas, espingardas e pistolas. Pior: uma anta e uma tartaruga, raridades que o colecionador pretendia levar vivas para a sua pátria, a Áustria, foram sumariamente assadas e comidas.
Terminou assim a mais longa expedição realizada por um pesquisador estrangeiro no Brasil. O austríaco Johann Natterer (1787-1843) coletou o maior acervo biológico reunido aqui por uma única pessoa. Durante dezoito anos viajou pelo interior do Brasil, passando pelas províncias do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Amazonas e Pará, recolhendo espécies para o imperador austríaco Francisco I (1768-1835). Mais explorador do que cientista, Natterer enviou para Viena, em várias remessas, 12 293 pássaros empalhados - em média, coletou quase dois pássaros por dia em que esteve no país -, 1.146 mamíferos, 1.621 peixes, 32.825 insetos e mais anfíbios, crustáceos, moluscos, conchas, vermes, crânios de índios e toras de madeira. Reuniu até espécimes que os cientistas ainda não tinham catalogado, como o peixe-boi e a piranha-vermelha da Amazônia, que acabou recebendo o nome científico de Serrasalmus nattereri em sua homenagem”. (O homem que colecionou o Brasil - Fábio Sanchez - Superinteressante - Edição 148, Janeiro de 2000)

- Natterer de volta a Londres

Chegou a Londres, em 9 de novembro de 1835, onde permaneceu convalescendo durante todo o inverno das doenças tropicais que contraíra. Só retornou a Viena em agosto. Entre 1838 e 1840 realizou viagens ao norte da Alemanha, Dinamarca, Suécia, Rússia e ao sul da Alemanha, França, Inglaterra e Holanda. Natterer almejava redigir um livro sobre a Ornitologia mundial, mas faleceu, em 17 de junho de 1843, antes de concretizar seu projeto.

* Fontes:
DORN, Christa Tiedl - Johann Natterer e a Missão Austríaca para o Brasil - Brasil - São Paulo, 1999 - Editora Index.
WALLACE, Alfred Russel - Viagens pelos rios Amazonas e Negro - Brasil - São Paulo, 1979 - Editora da Universidade de São Paulo.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB) 
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Jacaré de seis metros assusta ribeirinhos em Santarém


Com medo, moradores mataram o animal a pauladas. 
Réptil estava próximo a local onde crianças brincavam.


A visita inesperada de um jacaré de seis metros trouxe terror a uma comunidade ribeirinha em Santarém, no oeste do Pará. O animal apareceu embaixo de uma casa na vila de Tapara no último domingo (5). As informações são do portal No Tapajós.

Assustados, os moradores mataram o réptil a pauladas, pois ele estaria próximo a um grupo de crianças que brincava na água. Segundo o site de notícias, os ribeirinhos encontraram uma capivara no estômago do jacaré quando abriram sua barriga.

Justiça anula absolvição de envolvido na morte de Dorothy Stang


Julgamento de executor do crime também foi anulado.
Freira foi executada em fevereiro de 2005, em Anapu, no Pará.


O Tribunal de Justiça do Pará decidiu nesta terça-feira (7) anular o julgamento que absolveu o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida. Ele é acusado pelo Ministério Público do estado de ser um dos mandantes do assassinato da missionária americana Dorothy Stang. A freira foi executada em fevereiro de 2005, em Anapu, no Pará.

 

Os desembargadores do tribunal determinaram a prisão imediata do fazendeiro até o novo julgamento, que ainda será marcado. A defesa informou que vai recorrer da anulação do julgamento e que vai sollicitar habeas corpus. 


Na mesma sessão os desembargadores decidiram anular também o julgamento de Rayfran das Neves, que foi condenado a 27 anos de prisão como executor da religiosa. No entendimento dos desembargadores, os jurados não levaram em consideração a qualificadora de promessa de recompensa, pois na época do julgamento eles acreditam que a Promotoria não conseguiu provar que Rayfran receberia recompensa em dinheiro pela morte da religiosa. Se isso tivesse ocorrido, a pena de Rayfran poderia ser maior. 

 

No caso de Bida, a Justiça entendeu que o julgamento deveria ser anulado porque a defesa usou uma prova ilegal, quando exibiu um vídeo com um depoimento onde outro participante do crime inocenta o fazendeiro. A decisão se deu devido a prova ter sido incluída nos autos sem o conhecimento do juiz e do Ministério Público.

 

Bida deverá ser encaminhado para a Penitenciária Estadual Metropolitana (PEM III), em Americano (PA), onde deverá aguardar o agendamento de novo júri.



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