quarta-feira, 8 de abril de 2009

A Raposa do apátrida sicário Ayres


A Raposa do apátrida sicário Ayres

Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 05 Abril de Março de 2009

“Malévolos sicários,

Raça espúria, sem Pátria, ermos de brio,

Já traidores alfanges afiando,

O ensejo só aguardam favorável

De ensopá-los no sangue

Daqueles a quem bens, e honra devem.”
(Domingos José Gonçalves de Magalhães)

Achamos oportuno transcrever algumas considerações importantes sobre a Terra Indígena Raposa e Serra do Sol (TIRSS) depois da impatriótica decisão dos alienados ministros do STF.

-Senador Mozarildo Cavalcante

Fraude do começo ao fim - GPS do Agro Negócio (04/04/2009)

“A demarcação da Reserva Raposa/Serra do Sol é uma fraude, um crime do começo ao fim. Começa pela manipulação de aldeias que não existiam e aí foi se preenchendo a reserva com aldeias fictícias.

Do Plenário, o senador Mozarildo Cavalcanti registrou reunião entre o presidente do Tribunal Regional Federal, o Governador de Roraima e outras autoridades para discutir a retirada dos ocupantes não índios da reserva. Segundo Mozarildo, passa-se a imagem de que é ‘meia dúzia de arrozeiros’ que deve desocupar a área, quando seriam 500 famílias, muitas das quais formadas pelo casamento entre índios e brancos, com filhos nascidos na região.

É importante que o Tribunal procure executar a retirada das famílias com cautela, equilíbrio e justiça, pois não são animais, são pessoas humanas, com sentimentos e raízes no local que estão sendo enxotadas, de suas terras – explicou o senador. O parlamentar criticou ainda a falta de definição de critérios, por parte do STF, para a retirada de filhos de índios com brancos, nascidos na reserva, mas de pele branca. É um absurdo que filho de indígena não possa ficar por causa da pele.

O Supremo tem que decidir como será o procedimento em relação a essas pessoas que lá nasceram e lá estão. Isso que se está fazendo é um verdadeiro absurdo. É uma malvadeza, criticou Mozarildo.

Ao concluir seu pronunciamento, o parlamentar defendeu a aprovação de uma norma para definir como devem ser as futuras demarcações. Para ele, são necessárias regras que definam as linhas gerais de uma política de Estado e ‘não de governo’, como acredita estar ocorrendo na reserva Raposa Serra do Sol”.

- Deputado Federal Aldo Rebelo

 Decisão sobre Raposa agride interesse nacional (23/03/2009)

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter a demarcação em área contínua de 1,7 milhão de hectares da reserva indígena de Raposa-Serra do Sol, na fronteira do Brasil com a Guiana e a Venezuela, embute um equívoco geopolítico. Se os magistrados encontraram amparo para sua decisão em leis e portarias, mas não na Constituição do País, como observou em seu voto contrário e solitário o ministro Marco Aurélio de Melo, a decisão agride o interesse nacional e projeta um futuro de sombras e incertezas quanto à unidade do Estado e da Nação.

O Supremo abre um precedente para que sejam implantados no Brasil um Estado multinacional e uma Nação balcanizada, pois confere a tribos indígenas que fazem parte do povo brasileiro o esdrúxulo status de minorias apartadas do todo nacional, com prerrogativas negadas a outros estratos que há cinco séculos amalgamam a formação social do País.

O respeito aos direitos dos indígenas não pode implicar o esbulho dos não índios que há muito tempo fincaram a Bandeira do Brasil naquela região. Eles reivindicavam apenas 5% da área reservada aos índios. As 19 salvaguardas que o Tribunal estabeleceu para a execução plena de sua sentença são, paradoxalmente, um atestado de que a decisão tem vício de origem.

Foi como legalizar uma situação ilícita com a condição de que não se repita. Tamanha incongruência é flagrante no reconhecimento de que, também no episódio de Raposa Serra do Sol, a demarcação de terras indígenas tem seguido um modelo antinacional de particularismo étnico, e sido decidida com base em portarias da Funai e à revelia, como admite a sentença do STF, de outros entes federativos, a exemplo das Forças Armadas que protegem a fronteira.

Os índios beneficiados foram isolados da Nação. Os índios e não índios prejudicados podem recorrer à resistência não violenta na defesa de seus direitos históricos. E o Congresso Nacional, última instância da soberania popular, tem o dever de reparar este erro calamitoso do Executivo e do Judiciário.

- Socióloga Maria Lucia Victor Barbosa

Só um justo (21/03/2009)

“O julgamento pelo STF, no dia 19/03, da demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, culminou naquilo que já se esperava: a continuidade da área de 1,7 milhão de hectares ou 12 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Isso significa que essa parte do território nacional, que tem fronteira com a Guiana e a Venezuela, pertence agora a uma ‘nação indígena’ e nela não poderão viver ou sequer pisar os chamados ‘não índios’ (termo politicamente correto), como se todos nós, brancos, negros, pardos não fossemos igualmente brasileiros.

Segundo o ministro Carlos Ayres Britto, os arrozeiros devem ser expulsos imediatamente da reserva, como se bandidos fossem. Note-se que os ‘não índios’ que compõe 1,5% dos habitantes do local, produzem 70% do arroz de Roraima ou 106 mil toneladas das 11.04 milhões que são produzidas em todo Brasil.

Só um justo, o ministro Marco Aurélio de Mello, votou contra a abstrusa demarcação. O ministro Marco Aurélio foi, além de justo, corajoso, coerente, clarividente, lúcido. Mas, só um justo, não salva o Brasil. Dez ministros proclamaram radiantes a redenção dos verdadeiros donos da terra que, em sua pureza original, apesar de aculturados, são agora os únicos habitantes da imensa reserva. A eles foi dado o direito de voltar ao atraso primitivo, de se aliar aos que vindo de fora quiserem se estabelecer nas terras de ninguém, ou seja, dos 18 mil índios, gatos pingados naquele ermo sem defesa. Que venham os companheiros das Farc, os cobiçosos estrangeiros, os madereiros, os predadores de todo o tipo que devastam a natureza e levam a riqueza que o país estupidamente não sabe usar. Ninguém vai tomar conhecimento.

Não digam os senhores ministros que as 19 condições impostas pelo Supremo, arremedos de proteção da reserva vão funcionar. Desde quando a lei funciona no Brasil? Funciona a velha esperteza, a malandragem que burla as leis que, aliás, raramente são conhecidas, quanto mais cumpridas. No máximo ainda procedemos como nas colônias espanholas onde se dizia: ‘La ley se acata, pero no se cumple’.

A maioria dos brasileiros não vai tomar conhecimento da infausta sentença dos dez ministros. A reserva de nome exótico, encravada no longínquo Estado de Roraima não faz parte da imaginação do carioca, do baiano, do mineiro, do paulista, do gaúcho, de todos que em seus Estados não têm noção de nossa grandeza territorial, de nossas riquezas naturais. Tão pouco faz parte dos sentimentos de nosso povo o sentido de pátria. Aliás, nossa visão se limita ao entorno imediato de cada um e o estrago feito passará despercebido.

Contudo, os senhores ministros, ao abrir o precedente que consagra na prática a ‘nação indígena’, escancararam o direito de outras ‘nações’ reivindicarem a posse de várias regiões do país, como é o caso de Mato Grosso, maior produtor de soja, que quem sabe poderá voltar aos tempos pré-colombianos. E não falo só de outros índios ou dos quilombolas. Creio que já não se poderá (ou poderá?) criminalizar as aspirações separatistas dos que almejam apartar do restante do Brasil os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com o objetivo de criar um país menor, mais evoluído e mais próspero, exata contraposição à reserva Raposa Serra do Sol. (...)

Infelizmente, só um justo não dá conta de nos salvar de nós mesmos. Mas, pelo menos consola saber que o ministro Marco Aurélio de Mello existe”.

- Coronel Gélio Fregapani

Comentário da semana nº 30 (29/03/2009)

“Ainda a Raposa

Incompreensível, para quem pensa na Pátria, a decisão do STF. Mais cedo ou mais tarde o Congresso vai rever e modificar a Lei. Há dois anos, o Romero Jucá disse em uma roda, que a demarcação da Raposa era irreversível. Estava enganado ou enganando; nem as fronteiras nacionais são irreversíveis. Nenhuma fronteira foi traçada por Deus; são apenas resultado de pressões: pressões econômicas, políticas, militares e demográficas, sendo esta última a única definitiva.

Sobre essa artificial fronteira criada pela decisão do STF, assistimos o choque entre as pressões políticas e as pressões demográficas. No momento venceu a pressão política. A geopolítica nos ensina que a longo prazo a pressão demográfica vencerá. Os indígenas buscam saúde, educação e outras benfeitorias, não querem ser isolados. Não se pense que estamos preservando a cultura deles, apartando-os da convivência com a sociedade brasileira. O cenário real é diferente, os índios terão a terra contínua demarcada, mas, em busca de uma melhor condição de vida irão viver nas periferias das cidades. Esta afirmação é uma visão da realidade; a periferia de Boa Vista, capital de Roraima já concentra a maior parte da população indígena do estado. Eles os donos da imensidão da Terra Indígena São Marcos e de tantas outras, abandonam em massa essas imensidões vazias em busca de uma melhor qualidade de vida, mesmo sobrevivendo de caridade e do assistencialismo enquanto não conseguem um humilde trabalho.

As Terras Indígenas abandonadas pelos índios são fruto da cobiça de muitos, mas não podem ser tocadas pelos brasileiros. A pergunta é: quem irá defendê-las?

Enquanto isto...

O Ayres começa a perceber a enrascada em que se meteu. Seu empenho em retirar imediatamente os moradores não-índios esbarra na impossibilidade de retirar o gado e as máquinas no prazo em que estabeleceu; em não haver lugar para levar o gado; na má vontade da Guarda Nacional, onde já há quem ensaie acompanhar o Exército na negativa a servir de capitães de mato. Esboça-se, na melhor hipótese, apenas um conflito entre índios. ‘Vai ter briga de índio contra índio, vai ter derramamento de sangue, porque a gente não vai aceitar isso’, disse o tuxaua da comunidade do Flexal, município de Uiramutã, Abel Barbosa, secretário-geral da Sodiur.

A esses fatores podemos acrescer o efeito da crise, que secou o ouro das ONGs e restringe a farra dos órgãos governamentais, principalmente da Funasa. Isto e a interrupção das atividades produtivas causará fome. A fome causa criminalidade e revoltas, e estas podem não se restringir a Roraima. Se a Abin está cumprindo sua função, certamente já avisou ao governo que sempre diz não saber de nada.

Foi anunciado que haveria a criação de um ‘Território Federal Indígena’, que abrangeria mais de uma reserva. Ainda não vi confirmação disto, que transformaria nossa Pátria num conglomerado de nações hostis”.

- Engenheiro João Guilherme Sabino Ometto (vice-presidente da Fiesp)

A amarga lição da Raposa Serra do Sol (29/03/2009)

“A aprovação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, não atende às premissas da proteção ambiental e da exploração ecologicamente correta da Floresta Amazônica. A conseqüente remoção dos não-índios há muito arraigados na área e com atividade aparentemente sustentável, poderá, por exemplo, dar lugar e/ou estimular práticas clandestinas, de difícil controle e fiscalização.

Não se trata, aqui, de questionar o legítimo e inalienável direito dos índios brasileiros às suas reservas e tampouco de defender os rizicultores, cuja legalidade ou não como proprietários da terra é outra e específica questão. Porém, é preciso que tudo seja feito de maneira criteriosa, de modo a garantir a presença do poder público no território nacional, não apenas para proteger a própria população indígena, como no sentido de garantir a preservação e a soberania do País, impedir atividades ilegais e a internacionalização sub-repetícia da Amazônia. A região carece, na verdade, de uma ação estratégica ampla, articulada e planejada com discernimento. A demarcação de áreas de maneira afoita, sem visão do todo, não é a melhor política.

A necessidade de se manter produção sustentável, controlada e fiscalizada pelo poder público é maior do que nunca, conforme se observa com clareza na análise do informe ‘A situação das florestas no mundo’, que acaba de ser divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Este respeitado organismo alerta para uma questão preocupante: na América do Sul, o aumento de preços dos gêneros alimentícios estimulará o desmatamento, abrindo-se novas áreas à pecuária e agricultura. Embora seja coerente, de maneira burra, é verdade, com a irrevogável lei da oferta e da procura, a lógica desse raciocínio contraria o desafio prioritário da sustentabilidade.

Assim, compete aos governos da região, dentre eles o brasileiro, adotar todas as medidas cabíveis para impedir a concretização do prognóstico da FAO. Sem o estímulo de maiores lucros com produção de alimentos o desmatamento da Amazônia já é gravíssimo; imaginem o que pode acontecer se a situação não for devidamente controlada. Aliás, é um absurdo, principalmente no Brasil, o governo ainda não se ter colocado, com a legítima autoridade de um estado democrático, como intransponível obstáculo legal à devastação das florestas, em especial a Amazônica. A história mostra que a ausência do Estado é sempre preenchida por outros poderes, invariavelmente à margem da lei e na contramão dos interesses do País e da sociedade.

Manifesta-se nesse processo um dos mais insólitos casos de omissão do poder público no País. A Amazônia não pode continuar sendo gerida por organizações não-governamentais com causas questionáveis, muitas delas estrangeiras, algumas presentes na Raposa Serra do Sol. Em meio à demarcação contínua da reserva, haverá condições, inclusive institucionais, para se conter o corte ilegal e contrabando de madeira nativa?

A necessária preservação - ambiental, institucional e política - do território brasileiro, em particular a cobiçada Amazônia, é absolutamente viável. Exemplo disso encontra-se em outro estudo da FAO, no qual é indicado, com clareza, como o gerenciamento de áreas degradadas (que já são imensas na Floresta Amazônica), setor agroflorestal e replantio podem revitalizar economias locais e nacionais. Tais atividades poderiam ajudar a criar 10 milhões de novos postos de trabalho. Seria a conciliação da preservação, do combate ao efeito estufa e do premente desafio de criar empregos em meio a uma das mais graves crises econômicas da história.

Segundo a Organização Mundial do Trabalho (OIT), o desemprego no Planeta deverá aumentar de 179 milhões, em 2007, para 198 milhões de pessoas este ano. A gestão correta da Amazônia poderia contribuir muito para que o Brasil não integrasse tal estatística, pois a FAO demonstra que o investimento na economia verde criaria ótimas oportunidades nos setores agroflorestal, gerenciamento de áreas de lazer, desenvolvimento sustentável e de replantio de florestas degradadas.

São responsabilidades do poder público viabilizar atividades sustentáveis nas matas, prover sua preservação, impedir o corte e o comércio ilegal de madeira, como continua ocorrendo de modo grave na Amazônia, e garantir a integridade dos povos da floresta e do território nacional. A demarcação contínua das reservas indígenas dificulta muito esse processo e aprofunda a incapacidade até hoje demonstrada pelo Brasil de impedir a devastação da maior cobertura vegetal do mundo. Que o episódio da Raposa Serra do Sol, irreversível ante a decisão do STF, pelo menos sirva como lição para impedir a repetição do equívoco”.

- General Augusto Heleno Ribeiro (Comandante do CMA)

Exército vai instalar pelotão na reserva Raposa/Serra do Sol, afirma general - Kátia Brasil da Agência Folha, em Manaus (02/04/2008).

“Um dos críticos da demarcação contínua da terra indígena Raposa/Serra do Sol, general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, disse ontem que o Exército vai instalar um novo um PEF (Pelotão Especial de Fronteira) dentro da reserva antes de 2021. A localização do pelotão será na região da Serra do Sol, na qual vive a etnia ingaricó, entre o Parque Nacional Monte Roraima e a Serra do Parima, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.

‘Ali tem um vazio grande, é uma área de trânsito, há etnias que tem representantes dos dois lados. Então é uma área que é importante ser controlada em termos de circulação. É bastante rica de minerais, como ouro, e pode, perfeitamente, precisar de um controle maior’, disse o general.

No último dia 19, o STF (Supremo Tribunal Federal) manteve a demarcação contínua do território indígena e determinou a saída de não índios da área, incluindo os arrozeiros. O prazo final para a desocupação é o dia 30 deste mês. O STF definiu 19 condições para a demarcação.

No que diz respeito à construção de novas unidades do Exército ficou determinado que ‘o usufruto dos índios não se sobrepõe ao interesse da Política de Defesa Nacional, à instalação de bases, unidades e postos militares e demais intervenções militares’, que estes ‘serão implementados independentemente de consulta a comunidades indígenas envolvidas e à Funai’ e que haverá garantias para ‘o livre trânsito das Forças Armadas e o resguardo das fronteiras’.

Segundo o general Augusto Heleno, o planejamento do novo PEF na Raposa/Serra do Sol faz parte do projeto Amazônia Protegida, que prevê a instalação de 28 pelotões na jurisdição do CMA (Comando Militar da Amazônia) -o que compreende os Estados do Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Pará. O custo de uma unidade fica entre R$ 25 milhões a R$ 40 milhões. Heleno, 61, deixará o comando do CMA na semana que vem e assumirá a chefia do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, em Brasília.

Dentro da terra indígena Raposa/Serra do Sol o Exército havia instalado o 6º PEF, localizado na região do Uiramutã, mas, depois de ações judiciais dos índios, a unidade ficou fora dos limites da demarcação”.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

90630 150 - Petrópolis - Porto Alegre - RS

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domingo, 5 de abril de 2009

Jean Louis Rodolphe Agassiz


Jean Louis Rodolphe Agassiz e o ‘Rio Negro’

 Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 01 de Abril de 2009

 Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

(Quintino Cunha)

Estamos iniciando o planejamento da 2ª fase do Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio-Mar’. Com o objetivo de iniciar uma metódica preparação intelectual sobre nossa próxima jornada, no rio Negro, no final do ano, vamos publicar uma série de artigos que visam apresentar aos leitores um pouco, dos mistérios e encantos dessa jóia de águas negras. A descida do ‘Rio Negro’, de caiaque, é, também, uma homenagem ao importante escritor da literatura brasileira, Euclides da Cunha, no ano do centenário da sua morte. Euclides foi covardemente assassinado em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade.

- Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio Mar’ - 2ª Fase

Percorremos todo o Rio Solimões, de Tabatinga a Manaus, num percurso que superou os 1700 quilômetros, tendo em vista a exploração de afluentes, paranás, furos e lagos ao longo de sua calha. Não atingimos o Mar, como o próprio nome do projeto indica, mas resolvemos que, antes de atingi-lo, devemos percorrer o quarto maior rio brasileiro em vazão: o Rio Negro. Estamos na fase de planejamento e treinamento sem uma data marcada para o início da jornada, tendo em vista que ainda não dispormos dos recursos necessários, da ordem de R$30.000,00 para a execução do projeto.

- Jean Louis Rodolphe Agassiz

Agassiz nasceu em 28 de maio de 1807, em Môtier (Vully), no Cantão de Friburgo, Suíça. Estudou Medicina em Zurique, Heidelberg e Munique, interessando-se especialmente por Zoologia. Terminou os estudos em 1829 com um trabalho sobre ossos. Filho de um pastor protestante cresceu em um ambiente extremamente religioso. Concluiu o doutorado em Medicina em Munique, em 1830 quando entrou em contacto com Spix e Martius, que haviam realizado uma expedição científica ao Brasil (1817-1820). Agassiz se encarregou de descrever os peixes coletados no Brasil pelos pesquisadores. Enquanto exercia suas atividades como médico, continuou com os seus estudos relacionados com peixes, sendo reconhecido como especialista em Ictiologia Paleontológica. Emigrou para os Estados Unidos em 1849.

- O Criacionismo e o racismo dos Agassiz

“Não se pode negar a deterioração causada pela mistura de raças, mais presente aqui do que em qualquer outro lugar do mundo. Ela está ceifando rapidamente as melhores qualidades do homem branco, do negro e do índio, deixando em seu lugar um tipo mestiço (mongrel) sem qualidades específicas, deficiente em suas energias físicas e mentais”. (Louis e Elizabeth Cary Agassiz)

Louis e Elizabeth Cary Agassiz viajaram pelo Brasil entre 1865 e 1866. O livro ‘Viagem ao Brasil (1867)’, escrito por sua esposa Elisabeth, teve a preocupação de relatar os detalhes pitorescos da viagem acompanhados de belas descrições das paisagens, mostrando que os pesquisadores tinham a intenção de atingir um universo maior do que os especialistas em história natural. A expedição deu ênfase à atividade científica e, tentou embasar teorias biogeográficas e racistas. O estudo dos peixes é utilizado para solidificar os argumentos criacionistas contra os evolucionistas, além de defender uma biogeografia estática, onde cada ser teria sido criado para se estabelecer em uma região específica da terra.

Criacionismo: teoria que explica a origem dos seres vivos por criação. Contrária a chamada evolução espontânea (evolucionismo).

Seus comentários sobre a mestiçagem brasileira reforçam as teses raciais de que as raças não devem se misturar pregando abertamente a segregação dos negros. Agassiz afirmava que a miscigenação entre o branco, o negro e o índio fazia com que as melhores qualidades das três raças fossem descartadas no cruzamento, fixando suas piores características no mestiço.

- Os Agassiz no ‘Rio negro’

“No dia 23 entramos no rio Negro, outro mar de água doce que o Amazonas recebe pelo norte. A carta do Padre Fritz (que nunca entrou nesse rio), e a última carta da América de Delisle, feita conforme a do Padre Fritz, fazem correr este rio do norte para o sul, ao passo que é certo, pelo relato de quantos o remontaram, que ele provém do oeste, e que corre para o este, inclinando-se um pouco para o sul. Testemunhei por meus próprios olhos que essa é a sua direção várias léguas acima de sua desembocadura no Amazonas, onde o rio Negro entra tão paralelamente que, sem a transparência das águas que se chamam precisamente ‘rio Negro’, seria tomado por um braço do próprio Amazonas, separado por alguma ilha.

Subimos pelo rio Negro duas léguas, até o forte que os portugueses aí levantaram na margem setentrional, no lugar mais estreito, que mede 1.203 toesas (2.344,041m), e onde observei 03°09’ de latitude. É esse o primeiro estabelecimento português que se encontra ao norte do rio das Amazonas, quando por ele descemos. O rio Negro é praticado pelos portugueses há mais de um século, e eles aí fazem um grande comércio de escravos. Há aí sempre um destacamento da guarnição do Pará, para manter o respeito das nações índias que lá habitam, e para favorecer o comércio dos escravos nos limites prescritos pelas leis de Portugal; e todos os anos este acampamento ambulante, a que se dá o nome de ‘tropa de resgate’, penetra para diante pelas terras. O capitão comandante do Forte do Rio Negro estava ausente quando aí aportamos: não me demorei aí mais de vinte e quatro horas.

Toda a parte descoberta das margens do rio Negro é povoada por missões portuguesas, dos mesmos religiosos de Monte Carmelo, que encontráramos descendo o Amazonas, desde que deixamos as missões espanholas. Subindo quinze dias, três semanas ou mais, pelo rio Negro, achamo-lo ainda mais largo que na sua boca, em virtude de grande número de ilhas e lagos que forma. Em todo este intervalo o terreno das margens é elevado, e nunca se vê inundado: o mato aí é menos bravo, e o país é completamente diferente das margens amazônicas. Soubemos, no Forte do Rio Negro, particularidades sobre a comunicação deste rio com o Orenoco, e por conseguinte deste último com o Amazonas. Não aduzirei a enumeração das diversas provas de tal comunicação, provas que eu colhi cuidadosamente em minha rota; a mais decisiva era então o testemunho insuspeito de uma índia das missões espanholas, das margens do Orenoco, com quem tinha falado e que chegou de canoa ao Pará, vindo daí. Todas essas provas tornam-se inúteis para o futuro, pois cedem lugar a uma última. Acabo de saber por uma carta escrita do Pará ao reverendo Padre João Ferreira, reitor do Colégio dos Jesuítas, que os portugueses do acampamento ambulante do rio Negro (no ano último de 1744), tendo subido de rio em rio, encontraram o superior dos jesuítas das missões espanholas das margens do Orenoco, e com ele voltaram pelo mesmo caminho, e sem desembarcar, até o mesmo acampamento: o que estabelece a comunicação dos dois rios.

Este fato não pode mais hoje ser posto em dúvida; é embalde que, para lançar nele alguma incerteza, se reclamaria a autoridade do autor recente do Orenoco Ilustrado, o qual, depois de ter sido longo tempo missionário das margens do referido rio, considerava ainda em 1741 essa comunicação impossível. Ele ignorava então, sem dúvida, que suas próprias missivas ao comandante português e ao esmoler da tropa de resgate chegavam de sua missão do Orenoco por esse mesmo caminho, reputado imaginário, até o Pará, onde as vi entre as mãos do governador; mas este autor está hoje plenamente desenganado a este respeito, como eu soube por M. Bouguer, que o viu no ano passado em Cartagena da América. A comunicação do Orenoco e do Amazonas, recentemente verificada, pode passar por uma descoberta em geografia, tanto mais que essa junção, embora marcada sem nenhum equívoco nas antigas cartas, foi suprimida nas novas pelos geógrafos modernos, como se de geral concerto, e tratado como quimérica pelos que pareciam estar melhor informados da realidade. Esta não é provavelmente a primeira vez que a verossimilhança e as conjeturas puramente plausíveis vencem os fatos atestados pelas relações de viagens, e que o espírito crítico, levado muito longe, chega a negar decisivamente aquilo de que se podia ainda apenas duvidar.

Mas como se faz essa comunicação do Orenoco com o Amazonas? Um mapa minucioso do rio Negro, que teremos quando aprouver à corte portuguesa, poderia instruir-se a este respeito. (...) Peço ainda permissão para um pequeno pormenor geográfico, que tocava muito profundamente o meu assunto para que eu o olvide, e que pode servir para descobrir a origem de um romance a que a sede do ouro pôde emprestar alguns visos de veracidade: uma cidade cujos tetos e muralhas andavam cobertos de lâminas de ouro, um lago cujas areias eram do mesmo metal. É mister recordar aqui o que foi referido acima a respeito do rio do Ouro, e os fatos já citados, encontrados nas relações dos padres d’Acuña e Fritz. Os manaus, segundo este último autor, eram uma nação belicosa, temida por todos os vizinhos. Ela resistiu longamente às armas dos portugueses, de quem hoje é amiga: há vários manaus hoje fixados nos aldeamentos e missões marginais do rio Negro. Alguns fazem ainda incursões pelas terras de nações selvagens, e os portugueses se servem deles para o comércio de escravos. Foram dois desses índios manaus que penetraram até o Orenoco, e roubaram e venderam aos portugueses a índia cristã de que já falei. O Padre Fritz diz expressamente em seu jornal que esses manaus, que ele viu traficar com os índios das margens do Amazonas, e que tiravam ouro do Iquiari, tinham suas habitações no chamado Jurubech.

(...) Tenho entre as mãos um extrato de diário e um esboço de carta do viajante, provavelmente o mais moderno dos que já empreenderam esta descoberta. Foi-me comunicado no Pará, pelo próprio autor, que no ano de 1740 subiu o rio Essequibo, cuja foz no oceano está entre o Suriname e o Orenoco. Depois de ter atravessado lagos e vastos campos, ora arrastando, ora carregando a canoa, com trabalhos e fadigas incríveis, e sem ter nada achado do que buscava, chegou enfim a um rio que corre para o sul, e pelo que desceu para o rio Negro, chegando do norte. Os portugueses lhe chamaram rio Branco, e os holandeses de Essequibo o denominaram Parima; sem dúvida acreditaram que ele conduzia ao lago Parima, tal como se fez em Caiena com um outro rio, por motivo semelhante. De resto crer-se-á que o lago Parima é um dos que atravessou o viajante que acabo de citar; mas ele achou tão pouca semelhança com o retrato que se tem feito do lago Dourado, que me parece ficou muito longe de aplaudir semelhante conjetura”.


Fontes:

AGASSIZ, Luís e Elizabeth Cary - Viagem ao Brasil (1865 – 1866). Brasil - Brasília, 2000 - Senado federal.

DESMOND, Adrian, MOORE, James - Darwin a vida de um evolucionista atormentado. Brasil - São Paulo, 2000 - Geração Editorial.


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Marina Silva é premiada na Noruega por luta ambiental


Ela vai levar US$ 100 mil do Prêmio Sophie 2009, anunciado nesta quarta.
Jurados consideraram que ela conseguiu resultados 'sem comparação'.


A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (PT-AC) é a vencedora do Prêmio Sophie 2009, anunciado nesta quarta-feira (1º) na Noruega. A senadora levou US$ 100 mil por seus esforços para preservar "o maior e mais rico ecossistema da Terra: a floresta amazônica". Um painel de jurados afirmou que Marina, de 51 anos, demonstrou coragem e conseguiu resultados que são "sem comparação" na proteção das florestas. A ex-ministra nasceu de uma família com 12 irmãos, que viviam da extração da borracha em seringais. Mesmo analfabeta até a adolescência, estudou e chegou a formar-se em História na Universidade Federal do Acre. Parte da militância de Marina pela proteção do meio ambiente se deu ao lado do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988.


Apesar da oposição de fazendeiros e outros interesses econômicos, Marina usou a lei e as instituições para proteger a floresta, fundamental para o meio ambiente, pois absorve grandes quantidades de dióxido de carbono. Ela também ajudou a criar o Fundo Amazônia, para evitar a emissão de gases causadores do efeito estufa através da conservação da floresta. "Marina Silva recebeu o Prêmio Sophie por sua coragem, criatividade e habilidade em forjar alianças, mas primeiro e sobretudo por sua batalha para conservar a Floresta Amazônica", disse o júri do prêmio. "Seu esforço para assegurar um manejo sustentável da terra em que vivemos é uma inspiração para todos nós."


Marina demitiu-se após quase cinco anos no posto de ministra, em maio de 2008. O prêmio foi criado em 1997, pelo escritor norueguês Jostein Gaarder e pela mulher dele, e seu título refere-se ao maior sucesso do autor, "O Mundo de Sofia". No ano passado, o vencedor foi o biólogo norte-americano e escritor Gretchen C. Daily. O prêmio deste ano será entregue em uma cerimônia em Oslo, no dia 17 de junho.


Richard Spruce e o ‘Rio Negro’



Richard Spruce e o ‘Rio Negro’

Por Cel Eng R/1 Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 03 de Abril de 2009

Olha esta água, que é negra como tinta.Posta nas mãos, é alva que faz gosto;Dá por visto o nanquim com que se pinta,Nos olhos, a paisagem de um desgosto.(Quintino Cunha)

 - Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio Mar’ - 2ª Fase

Estamos iniciando o planejamento da 2ª fase do Projeto-Aventura ‘Desafiando o Rio-Mar’. Com o objetivo de iniciar uma metódica preparação intelectual sobre nossa próxima jornada, no rio Negro, no final do ano, vamos publicar uma série de artigos que visam apresentar aos leitores um pouco, dos mistérios e encantos dessa jóia de águas negras. A descida do ‘Rio Negro’, de caiaque, é, também, uma homenagem ao importante escritor da literatura brasileira, Euclides da Cunha, no ano do centenário da sua morte. Euclides foi covardemente assassinado em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos de idade.

- Richard Spruce e o ‘Rio Negro’

 Percorremos todo o Rio Solimões, de Tabatinga a Manaus, num percurso que superou os 1700 quilômetros, tendo em vista a exploração de afluentes, paranás, furos e lagos ao longo de sua calha. Não atingimos o Mar, como o próprio nome do projeto indica, mas resolvemos que, antes de atingi-lo, devemos percorrer o quarto maior rio brasileiro em vazão: o Rio Negro. Estamos na fase de planejamento e treinamento sem uma data marcada para o início da jornada, tendo em vista que ainda não dispormos dos recursos necessários, da ordem de R$30.000,00 para a execução do projeto.

- Richard Spruce

 Richard Spruce, médico e naturalista britânico, nasceu em Ganthorpe, no norte de Yorkshire, no dia 10 de setembro de 1817. Aos 16 anos, listou as plantas que cresciam próximas à sua casa e, aos 19, descreveu cerca de 490 espécies de floríferas locais. Lecionou, a partir de 1839, matemática no Collegiate School, em York, onde permaneceu até o fechamento da escola em 1844. Aficionado à botânica, adquiriu considerável conhecimento sobre floríferas e briófitas no condado de Yorkshire e Teesdale, uma das regiões de maior biodiversidade do Norte da Inglaterra. Seus estudos serviram de base para a publicação de importante trabalho sobre briófitas obtendo o reconhecimento de notáveis botânicos da época. Empreendeu, apoiado por seus pares, uma expedição científica aos Pireneus, de maio de 1845 a abril de 1846. Apesar de sua saúde delicada, Spruce, conseguiu levar a bom termo a excursão de 12 meses aos Pireneus e graças a ela conseguiu complementar as 169 espécies de briófitas já descritas, trazendo dos Pirineus, 478 exemplares dentre os quais 17 espécies totalmente novas para a ciência.

- Preparativos para a viagem à América

 Enquanto organizava a coleção dos Pireneus, começou a se preparar, para a viagem à América, estudando plantas exóticas no Jardim Botânico Real, Kew e no Museu de História Natural de Londres. Em 1849, decidiu viajar ao Amazonas, apoiado por Sir William Hooker, diretor do Jardim Botânico Real. Hooker concordou em vender os espécimes, coletados por Spruce, para herbários europeus com o objetivo de financiar a viagem. O principal objetivo da viagem era investigar a flora do vale do Amazonas e enviar espécimes para a coleção de Kew.

- Viagem à América

Depois de explorar a foz do rio Amazonas, viajou para a foz do Tapajós, encontrando Wallace em Santarém. Subiu o rio Trombetas até as proximidades da fronteira com a Guiana Inglesa, retornando ao Amazonas e chegando a Manaus no final de 1850. Depois de explorar a floresta nas cercanias de Manaus navegou pelo rio Negro chegando ao Orenoco pelo Cassiquiare.

Em 1852, Richard Spruce descreveu as dificuldades encontradas em São Gabriel da Cachoeira: “A casa onde estou é muito antiga. O sopé é povoado por ratos, vampiros, escorpiões e baratas; o assoalho, sendo apenas de terra, é minado por formigas saúvas, com as quais tenho tido batalhas terríveis. Uma noite, elas levaram a quantidade de farinha que eu levaria um mês para comer; depois, descobriram minhas plantas secas, e resolveram triturá-las e levá-las embora”. Neste ano Spruce encontrou, no rio Uaupés, grande quantidade de desenhos de peixes, lagartos, insetos, homens e outras imagens gravadas em seixos por tribos amazônicas.

No final de 1854 desceu o Negro e subiu o Amazonas até Tarapoto (Peru) na encosta dos Andes. Permanecendo por dois anos, armazenando grande coleção de plantas. Em 1857, desceu o rio Amazonas e depois se deslocou a pé através das florestas de Banos onde grande parte de sua carga foi perdida ou abandonada. Seis meses depois, chegou a Ambato, onde montou seu quartel-general por dois anos. Suas pesquisas em Tarapoto e na floresta de Banos, resultou na mais rica coleção de briófitas de todas as suas jornadas.

De todas as regiões exploradas, foi a do rio Negro que mais o encantou. Foi ali que coletou o maior número de espécies e gêneros desconhecidos. Segundo seus cálculos, existiriam entre cinqüenta mil e oitenta mil espécies de angiospermas na floresta amazônica; atualmente estima-se que a flora amazônica encerre oitenta mil espécies. Ainda hoje essa região é um repositório de espécies novas, não descritas, mas ainda continua sendo de difícil acesso mesmo para os botânicos modernos. É interessante imaginar como Spruce foi capaz de conduzir um programa tão longo e produtivo em uma região tão hostil, sem dispor das facilidades modernas.

- Wallace relata seus encontros com Spruce

 “Pouco depois, voltamos para Santarém. Nossa antiga casa encontrava-se ocupada. Arranjamos outra, situada na extremidade da cidade. Consistia em dois pequenos cômo­dos, tendo chão de terra batida e um terreiro nos fundos. Conseguimos que uma negra velha viesse cozinhar para nós, e logo pudemos retomar nossa rotina diária. Levantávamos às seis e ficávamos arrumando as caixas e redes de insetos, enquanto a velha cozinheira preparava o café da manhã, que era servido às sete. Terminado o café, dávamos dinheiro a ela para que providenciasse as compras do almoço, e saíamos às oito para um bom lo­cal de coleta que tínhamos descoberto, situado a cerca de umas três milhas da cidade. Ali ficávamos à espreita dos insetos até por volta das duas ou três horas. O lugar era frequen­tado pela belíssima Callithea sapphira, uma das mais delicadas de todas as borboletas, e pelas diminutas, curiosas e brilhantes Erycinidae. Quando regressávamos, parávamos no Tapajós para tomar um banho, depois do que seguíamos para casa. Ali chegando, sempre havia uma deliciosa e refrescante melancia à nossa espera. Trocávamos de roupa, comía­mos e ficávamos atarefados com os insetos até de tardinha. Aí, quando o tempo refresca­va, tomávamos chá e íamos visitar ou receber a visita de nossos amigos brasileiros e ingle­ses. Entre estes, contávamos, agora também, com Mister Spruce, o botânico, que aqui chegara proveniente da cidade do Pará (Belém) pouco antes de regressarmos de Monte Alegre.

(...) Mister Spruce partira para Óbidos uma semana antes de nós, numa embarcação grande cujo proprietário se oferecera para levá-lo. Quando lá chegamos, encontramo-lo ainda de­sempacotando suas coisas, o que muito nos admirou. Disse ele que só chegara a Óbidos na noite anterior, tendo gasto dez dias numa viagem que alguns conseguem completar em um dia e uma noite! As causas do atraso segundo nos explicou, foram duas: primeiro, a falta de vento; segundo, o fato de que o proprietário da canoa não viajava à noite... O infortu­nado viajante que se aventura pela região amazônica tem que estar com o espírito prepa­rado para tais percalços”.

- Hevea e Cinchona

Durante sua permanência no Peru, foi contratado pelo governo Indiano para localizar e estudar o gênero Cinchona, quinino - único antimalárico conhecido na época - e coletar sementes e mudas para cultivar essa espécie nas colônias britânicas asiáticas. Mesmo com o rígido controle das autoridades e proprietários rurais conseguiu identificar as melhores árvores, coletar as suas sementes na época adequada, compreender como cultivá-las e, exportar o material coletado. O trabalho consumiu dois anos de sua profícua existência e neste período realizou estudos e recolheu amostras na área que possuía a maior quantidade e qualidade de seu objeto de estudo - a cinchona. Enviou mais de cem mil sementes, do porto de Guaiaquil para a Índia e, em 1861, despachou 637 mudas que ele próprio havia cultivado. Graças ao seu esforço a indústria de quinino do Sudeste asiático se desenvolveu, gerando divisas importantes aos países produtores e, em contrapartida, rendendo, para Spruce, uma modesta pensão anual. Em decorrência desse trabalho milhões de vidas, no mundo inteiro, foram salvas.

- Ayahuasca

Richard Spruce, em novembro de 1852, navegando pelo Rio Negro, chegou à aldeia de Ipanoré, maloca de Urubucoará onde assistiu a cerimônia do culto Jurupari, em que os Tucanos usavam uma bebida chamada ‘kapi’ (erroneamente grafada ‘caapi’, palavra tupi-guarani que designa gramíneas), preparada a partir de uma espécie de cipó. Spruce relata que: “os brancos que tomaram caapi na forma apropriada coincidem em seus relatos sobre as sensações obtidas sob seu efeito. A vista se altera e diante dos olhos passam rapidamente visões onde parecem combinar-se tudo o que viram ou leram sobre o esplêndido e o magnífico”. Spruce embriagou-se com ‘caxiri’ (bebida fermentada à base de macaxeira) e não chegou a provar a bebida sagrada, mas, já no dia seguinte começou a pesquisar o seu principal componente, o cipó que denominou Banistera caapi (depois Banisteriopsis caapi).

Procurando determinar seus componentes químicos despachou, em março de 1853, uma coleção de ramas do cipó para a Inglaterra, que ao ser aberta no Jardim de Kew foi considerada imprópria para a análise, por estar tomada pelo mofo. Em 1858 ele encontra a mesma planta sendo usada na tribo Guahibo, no alto Orenoco, e, logo depois, entre os Mazan e Záparos dos Andes peruanos, que denominavam-na Ayahuasca (vinho das almas ou vinho dos mortos, na língua quechua). Spruce considerava que o entendimento das crenças e práticas primitivas estava relacionado ao uso que esses povos faziam das plantas, e que essa cultura tinha de ser contextualizada dentro do ambiente natural.

- União do Vegetal (UDV)

O cipó, conhecido pela UDV como Mariri, usado em decocção com as folhas de um arbusto também nativo da Amazônia, Psychotria viridis, ou Chacrona, compõem o chá conhecido como Ayahuasca - que a UDV denomina Vegetal. A UDV considera que a classificação do Vegetal como ‘alucinógeno’ é incorreta, pois não provoca a perda do contato com a realidade, mas amplia o grau percepção da realidade. Os pesquisadores da área de Etnobotânica propõem a classificação do Vegetal como ‘enteógeno’, ou, mais comumente, como um psicoativo.

- Determinação e humildade

Spruce superava a saúde frágil e as limitações físicas com uma força de vontade e determinação fantásticas enfrentando privações e obstáculos de toda ordem. A sua visão holística, a exatidão e a meticulosa descrição de suas observações o tornam não só um notável botânico, mas também admirável antropólogo, linguista (era fluente em francês, espanhol e português), geólogo, e geógrafo, bem como perspicaz observador dos sistemas políticos e dos hábitos tribais amazônicos e andinos. Spruce contribuiu, significativamente, para a compreensão dos rituais e costumes primitivos e para o conhecimento das propriedades e usos das plantas da Amazônia.

- Retorno à Inglaterra

Em 1864, de volta à Inglaterra, levou pelo menos 30 mil plantas, além de mapas, e uma infinidade de sementes. Entre essas sementes estavam as árvores da borracha e plantas de uso medicinal. Depois de 17 anos de profícuos trabalhos na Amazônia, Spruce lamenta, “que todo o norte da América do Sul, com a Amazônia brasileira, não estivesse em mãos dos ingleses”.

Depois da morte de Spruce, Wallace editou suas ‘Notas de um botânico no Amazonas e nos Andes (1908)’, acrescentando-lhes uma introdução bibliográfica.

* Fontes:

SEAWARD, M. R. D. - Richard Spruce, botânico e desbravador da América do Sul. Brasil - Rio de Janeiro, 2000 - História, Ciências, Saúde - Manguinhos.

SPRUCE, R. - Notas de un botanico sobre el Amazonas y los Andes - Peru - Quito, 1938 - Publicaciones de la Universidad Central.

WALLACE, Alfred Russel - Viagens pelos rios Amazonas e Negro - Brasil - São Paulo, 1979 - Editora da Universidade de São Paulo.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)

Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)

Rua Dona Eugênia, 1227

90630 150 - Petrópolis - Porto Alegre - RS

Telefone:- (51) 3331 6265

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br


Operação no AM apreende onça e 1.860 quilos de peixes pescados ilegalmente




Um macaco guariba também foi libertado.
Ação aconteceu em região de reservas de exploração sustentável.


Operação do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) realizada na última semana de março apreendeu 1.863 quilos de pescado ilegal e aplicou R$ 64,7 mil em multas. O objetivo da ação era coibir a pesca no chamado período de defeso, quando os peixes estão em época de reprodução. Segundo o Ipaam, os agentes encontraram ainda 4 quilos de carne de capivara, um macaco guariba, uma onça pintada mantida em cativeiro, nove quelônios e um barco de pesca.

A fiscalização, informa o Ipaam, aconteceu no Corredor Ecológico Central da Amazônia, que inclui a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e a Reserva Extrativista (Resex) Catuá-Ipixuna, a oeste de Manaus, seguindo pelo Rio Solimões. 

Foram apreendidos 1,3 tonelada de matrinxã, 409 quilos de pirarucu, 213 quilos de tambaqui e 33,5 kg de espécies variadas de pescado de menor valor.


Sabe de algum crime ambiental cometido na Amazônia? Mande sua denúncia paragloboamazonia@globo.com 


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